terça-feira, 28 de dezembro de 2010

E se as janelas crescessem connosco?

Tenho saudades das janelas altas. Daquelas janelas onde só chegava em bicos de pés, ou em cima do banco pequenino com tampo de corda, suficientemente grande apenas, para caberem dois pés juntinhos a rezar. Em pequena o mundo acontecia-me muito pela janela. Hoje em dia fico pouco em casa, por isso acontece-me menos.
É pena.
Com o tempo as janelas mirraram, e olhar através delas passou a ser óbvio, frequente, comum e até inevitável. Como tudo o que se torna fácil, também olhar pela janela se tornou aborrecido, ou pelo menos, menos interessante.
É pena.
Olhar pela janela já foi de tudo para mim, desde um enorme entusiasmo, à fuga possível entre paredes. Hoje não é quase nada, apenas porque deixei de as ver, ou melhor, deixei de ver o que se passa através delas.
Quando eu era miúda, os meus pais mudaram-se para um subúrbio chato que já não era campo, mas ainda não era cidade. Como qualquer subúrbio recente, também naquele as pessoas ainda não tinham tido tempo de envelhecer, pelo que, vida de bairro era coisa que ali não havia. Em contrapartida, decorriam obras por todo lado, e entre os carros e camiões que por ali se passeavam atarefados, a levar cimento para dentro e lama para fora, havia um que me enchia as medidas e que baptizei de "carro pequenino".
(Que ingenuidade, bem sei)
O carro pequenino, era  um tractor cor-de-laranja, realmente pequenino, apenas com um lugar para o condutor e um enorme (dentro da sua pequenez, claro) depósito para entulho à frente. De cada vez que se avistava aquele brinquedo na rua, tocava a sirene lá em casa
- Olhóóóóóó caaaaaaaaaaarro "paquanino"...
Ninguém se interessava muito por aquele assunto. Às vezes, com sorte, o pai ou a mãe (ou a avó, antes de ficar demasiado fraquinha) agarravam-me pela cintura e ajudavam-me no exercício hercúleo de me pendurar no parapeito, enquanto
- Olhóóóóóó caaaaaaaaaaarro "paquanino"...
Questiono-me frequentemente sobre o motivo daquele entusiasmo todo, e não chego a conclusão nenhuma.
Desta vez não é pena, é só assim.
O coração saltava pela boca e o corpo corria desalmadamente casa fora, à procura da janela onde a cada minuto, o carro "paquanino" cabia melhor. O coração só esmorecia, quando deixavam de existir janelas que o enquadrassem. Nesse momento, soltava as mãos doridas do parapeito, deixava o corpo escorregar parede abaixo até se enrolar num montinho de gente, e desejava ter uma casa de vidro, ou mais dez centímetros, ou sete bancos pequeninos empilhados, ou uma avó fortezinha,
(Nunca desejei ir para a rua atrás dele. Porque será? Se calhar por que sabia impossível o desejo) 
ou um carro "paquanino" só para mim.
(Ter um carro "paquanino" só para mim também era um desejo impossível e ainda assim eu desejava-o.)
(E assim de repente fiquei sem argumento)
(E quem disse que eu queria argumentar?)
Daquelas janelas não se viam só carros "paquaninos".
Daquelas janelas também se conseguia ver, felizmente, a avó a descer a rua com um saco carregado com vinte e oito carcaças, dezanove pãezinhos de lenha, nove vianinhas e ainda um pão-de-deus dos grandes para o lanche. Eu, a adivinhar enervação, corria rapidamente a avisar o pai, para dar tempo que a irritação do exagero gritante lhe passasse, antes da avó chegar feliz com as suas sacadas de trigo. A partir de certa idade deixa de fazer sentido contrariar coisas sem importância, e eu orgulho-me de ter contribuído para que ela morresse feliz, a comprar quilos de pão que ninguém comia, sem nunca se dar conta que aquilo era um tremendo disparate. 
Do carro paquanino, às vinte e oito carcaças da avó, passando pela carrinha do colégio que chegava vezes demais, muita coisa se passou através daquelas janelas, nos tempos em que só lhes chegava de bicos dos pés. Agora que não preciso de me pendurar no parapeito, a vida através das janelas cessou de me interessar. Por isso digo:
- As janelas deviam crescer connosco e deviam existir bancos pequeninos com tampos de corda por todo o lado.

domingo, 26 de dezembro de 2010

El Loco

Numa altura em que me preparo para regressar a Barcelona (que saudades...), lembrei-me deste dia três de Setembro. Aqui fica, sem edições envergonhadas, tal e qual foi escrito há onze anos.

Barcelona, três de Setembro de 1999

Cheguei a Barcelona pela manhã; apressei-me em direcção a um táxi, entrei e disse ao motorista “à la Plaça d’Espanya” . Olhou-me pelo retrovisor com um ar desconfiado. O meu sotaque ridículo denunciou-me de imediato.

Não falámos durante toda a viagem. Paguei e saí.

Subi a Av. Reina Mª Cristina, em direcção ao palácio de Victória Eugénia. Quando cheguei à fonte Montjuic, fui surpreendida por dois caixotes de madeira avermelhada lindíssima. Ao desviar o olhar de um para o outro, deparei-me com o inesperado (não esperava encontrá-lo Já), o pavilhão de Barcelona.

Apressei-me na sua direcção por um descampado de terra batida, onde brincavam uma série de cães vadios. Fiquei com as sandálias todas sujas e os pés também.

Para a próxima vou pelo passeio.

Ao aproximar-me dei-me conta de uma figura magra e esguia, que andava para trás e para a frente entre o volume do pódio e a espessa linha branca da cobertura em levitação. Parecia um leão enjaulado, ou “El loco” de Picasso, só que usava óculos de sol.

Sacudi os pés antes de subir a escadaria de acesso.

Cruzei-me com a figura magra atrás descrita e já de costas ouvi um “Hola” ameaçador. Era ele. Virei-me, aparentemente tranquila e reparei que trazia um cartão de identificação pendurado no bolso dianteiro das calças. Era o porteiro.

Paguei 550 pesetas para entrar, isto para estudantes claro. Malditas autoridades!

Ainda no topo da escadaria confesso que tive uma certa dificuldade em decidir por onde começar. Mirei (porque estava em Espanha) à volta, rodando sobre mim própria e de imediato cruzei o meu olhar com a “Dawn”. Não me apressei na sua direcção. Rondei o pavilhão e ela aparecia e desaparecia.

Dançava para mim.

Sentei-me no banco de pedra, no extremo mais longe da dita figura. Olhei-a fixa e demoradamente. Fotografei-a.

Os cães vadios continuavam a brincar na terra batida, alheios ao que se passava a poucos metros deles.

Vida de cão.

Passado algum tempo alguém se sentou ao meu lado, tentando ver o que eu escrevia. Odiei-o e fui-me embora.

Passei por trás do muro de travertina que serve de encosto ao banco, em direcção à estátua. Ao aproximar-me, a sua imponência aumentava. Estava num pedestal.

Quando a sua superioridade se tornou insuportável, virei-lhe as costas e fui para o centro do pavilhão. Esperei cerca de quinze minutos até me poder sentar numa das duas cadeiras Barcelona. Aproveitei esse tempo para observar o espaço.

Existem apenas duas cadeiras e vários bancos. O desgaste das primeiras é muito superior ao dos bancos e conferiu-lhes não só uma textura mais marcada, como também uma sensação de colagem ao toque. Tenho as costas a descoberto e sobe-me um arrepio cada vez que me encosto ou desencosto. Sinto algo que se divide entre a repugnância e o prazer. Ainda assim, permaneço sentada.

El loco tem uma enorme dificuldade em controlar a entrada das pessoas. Existe uma nítida confusão entre o exterior e o interior. Choverá sobre a Dwan? Hoje não concerteza, estão 25ºC.

Continuo sentada na cadeira Barcelona. Estou cercada de predadores. Não eu, mas a cadeira. Estão furiosos porque nunca mais me levanto. Estou absorvida pela escrita e não lhes dou a menor importância. Não sinto o mais pequeno remorso por ser egoísta. Teoricamente existe ainda outra cadeira livre, mas está demasiado próxima da minha , o que na prática significa que ninguém se atreve a sentar.

Estão furiosos.

Devem ser franceses.

A mola do meu bloco de notas fez barulho, tenho a certeza de que todos se assustaram, mas não disseram nada. Reina o silêncio, ninguém se atreve a falar.

Aliás, El loco parece-me deprimido (talvez fale com ele mais tarde).

Uma jovem aproximou-se de mim com um movimento brusco, em tom de ameaça. Não lhe liguei nenhuma. Está de jeans e sapatos ténis. Tem um lenço pendurado numa das presilhas das calças que se confunde com a textura do ónix. É um daqueles lenços banais debotados em amarelos e castanhos.

Lá vem o francês outra vez!

Tenho cinco pessoas à minha volta, ninguém se atreve. Ops…uma sentou-se. Estúpida. Ainda bem que o escrevo para não ter de lho dizer. Ainda por cima é feia, está vestida de caqui. Não é feia por estar vestida de caqui, nem porque não seja bonita, é feia porque se sentou onde não devia.

Agora é que o francês está desolado.

El loco continua deprimido, falo com ele mais tarde.

Aparece um amigo da “feia porque se sentou onde não devia” e foram os dois para dois bancos. Acho que são portugueses.

Sinto que o francês está a chegar ao limite da sua paciência, está prestes a explodir. Encostou-se a uma coluna.

Estou no topo da hierarquia desde as 12:00 e já são 12:35.

O francês aguentou até às 12:39 e acabou de se sentar ao meu lado. Exala um cheiro levemente desagradável, mas não o suficiente para me mandar embora. É uma pena que ele tenha dado este passo, pois eu preparava-me para me levantar e observar o desenrolar dos acontecimentos.

Está desconfortavelmente sentado, com o queixo apoiado na mão direita…ops… foi-se embora, são 12:43, nem chegou a tirar a mochila que tinha às costas.

Só consigo ver as pernas do El loco, imóveis claro. Está sentado na sua cadeira à porta do pavilhão. Só se levanta quando alguém se aproxima. Coitado, falo com ele mais tarde.

Gente a mais, demasiado calor humano, demasiada intimidade com pessoas que não conheço de parte nenhuma. Vou à livraria.

13:25 – comprei um livro e estou agora sentada na enorme língua de pedra que aponta para a estátua. À minha frente está o espelho de água maior. Houve-se água a correr mas não se vê de onde é que ela vem.

Os planos verticais tendem a desmaterializar-se através de reflexos implícitos ou explícitos. Os espelhos de água enfatizam esta situação. É pena que esteja incoberto, senão os brilhos seriam mais exuberantes. Também podia chover.

Apesar de estar incoberto, El loco continua de óculos de sol: daqueles Rayban que os meus pais usavam há vinte anos atrás. Melhor dizendo: “no tempo da outra senhora”, ou ainda “no tempo da Maria Carqueja”. Não conheci nem uma nem outra. Nem tão pouco conheci alguém que as tivesse conhecido.

Mais tarde falo com El loco, talvez ele saiba.

Continua imóvel, na sua cadeira, seguramente deprimido, com os seus óculos de sol. Desconhece que a luz na retina estimula o cérebro a produzir uma qualquer substância de que desconheço o nome. Há que avisá-lo.

Mais tarde falo com ele.

Depois de sair do pavilhão

Fui até ao “Centro de cultura Contemporànea de Barcelona”. Começou a chover. Será que El loco continua de óculos?

Uma das peças expostas no CCCB é um ready-made que consiste numa cadeira, também do tempo da outra senhora, com um letreiro que dizia qualquer coisa como: “Sit down untill death tears you appart”. Lembrei-me d’ El loco. Nunca cheguei a falar com ele.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O tempo e os gatos















Quando fico algum tempo sem viajar, esqueço-me de muitas coisas, todas importantes. Felizmente, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar um dia em que tropeço numa foto, num cheiro, numa memória,
(tropeça-se em memórias?)
e volta tudo intacto, como se não tivesse estado fugido tempo nenhum. Que grande lata!
Apesar da lata deste tudo, ainda bem que ele volta. De repente, é como se esta foto tivesse sido feita ontem, ou hoje, de tão entranhada que me está no corpo. Como se o tempo não tivesse passado por ela. E é também com lata que declaro com o coração,
- Esta foto foi feita hoje à tarde e estes miúdos nunca hão-de crescer.
O chato do tempo que insiste em correr, passa cuidadosamente pelas coisas importantes. Passa de fininho, como um gato em gincana delicada por entre os Limoges da Dona Efigénia.
(A Dona Efigénia é uma velha rechonchuda e enrugada que vive embrulhada num xaile morno, e pendurada na janela do primeiro andar que dá para o quintal da minha madrinha. Nunca lhe conheci gatos, mas aquela é seguramente uma velha de gatos)
O tempo, como os gatos das velhas, reconhece o valor das coisas. O tempo passa ao lado desta foto, tal como o gato da Dona Efigénia se enrola cuidadosamente nos vazios minúsculos entre os Limoges coloridos que animam a cómoda rococó. Chega a tocar-lhes com o pêlo e se ficarmos muito calados
(Muito calados? Calados, é calados! Protestaria a minha irmã)
quase ouvimos os passos dengosos e arrastados das pantufas do gato, a namorar as porcelanas, enquanto a espinha arqueada se acomoda à delicadeza do obstáculo.
A improbabilidade  que faz com que aquele gato não faça as porcelanas em cacos, é a mesma que não deixa o tempo passar naquela foto.
O tempo é um senhor educado e inteligente. Sabe bem que neste caso, não tem outra hipótese senão passar ao largo, tirar o chapéu com cerimónia e dizer baixinho eternamente
- Olá meninos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Eu, chata

Acabo de descobrir que sou uma chata e não estou nada satisfeita com a proeza.
Dei-me conta recentemente, que este blog tem 38 posts de "coisas sérias" e 7 posts de "coisas não muito sérias".
(????)
Quer eu queira quer não (e não quero), esta discrepância diz muito sobre mim e parece-me que não diz coisas lá muito boas. Diz pelo menos coisas demasiado sérias para o meu gosto, por incrível que pareça, bem sei.
O próprio nome das etiquetas é muito revelador. Do lado cinzento da vida temos uma etiqueta convicta de seu nome "coisas sérias", porém, do lado colorido da vida, temos um tímido "coisas não muito sérias".
- Há coisas absolutamente nada sérias, rapariga! E não há que ter medo de admitir.
Um post sobre bolos redondos e formas quadradas, por exemplo, não é uma coisa mesmo nada séria. Pelo menos ninguém acredita que seja.
Voltando a usar o meu lado "eu, avestruz", vou enfiar a cabeça num terreno (não lamacento, desta vez) e fingir que não me dei conta de nada disto. E levando ao limite esse meu lado "eu, avestruz", vou passar a etiquetar todos os meus posts (mesmo os sérios) com um descarado "coisas não muito sérias".
Há lá estado de alma mais maravilhoso que o da negação?
Duvido.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Eu, avestruz

Caros leitores,
Vamos lá ver se a gente se entende:
- O botão "não gosto" deste blog, é pura retórica. Boa?
O meu lado avestruz prefere enfiar a cabeça num terreno lamacento, a saber que há pessoas que não gostam do que eu escrevo, porém o meu lado democrata não me permite ter apenas o botão "gosto".
(Não sei se estão a ver o dilema)
Por isso sugiro que não matem a avestruz democrata que há em mim.
Agradecida.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Era mais ou menos assim ) ou assim (

Ontem a lua estava magrinha que eu vi.
Raramente a vejo, mas ontem entrou-me pelos olhos dentro de tão estreitinha e bem desenhada que estava, numa magreza de luz afiada. Quarto minguante parece que se chama, ou crescente, não sei dizer.
(Nunca sei onde raio é que a lua é mentirosa, mas não deve ser aqui)
Pouco importa para o caso. Era assim uma tirinha encurvada, um parênteses de luz pendurado no céu. E como é que eu, que abuso descaradamente dos parênteses, 
(Não por uma questão de estilo, mas por inabilidade ou da falta de paciência, para organizar ideias num texto)
(Prefiro que se trate de falta de paciência, mas desconfio que seja inabilidade) 
nunca tinha reparado naquele ali perdido, sempre no mesmo sítio, ou quase no mesmo sítio,
(Para lá da janela do meu quarto, estão a ver?)
(Como se houvesse outro quarto. Ou outra janela. Para lá da janela chega, neste caso)
à espera que eu o visse, ou que alguém lhe encontrasse o par, para poder cumprir o seu dever e aconchegar palavras lá dentro. Hoje vi-o e tive vontade de lhe gritar
- JÁ TE Viiiiiiii.
e depois dizer baixinho
- Fica tranquila, se vir o teu par por aí, vou a correr arranjar umas palavras e montamos tudo no sítio. Não te preocupes que já te vi.
Esperei um pouco sentada no terraço a fazer-lhe companhia, por vergonha de todas as noites passadas que nem dei por ela. Volta não volta, murmurava-lhe
- Descansa. Agora que te vi não te largo.
Como se ela fosse a algum lado. Assim sozinha sem par, o trabalho dela é ficar quieta, aparecer ali de tantos em tantos dias, como um cão que volta não volta, vai ao quarto do dono que morreu, na esperança de lá o encontrar. Assim estava a lua magrinha, de tantos em tantos dias
(Porque é que eu não sei quantos dias são? Lembro-me de estudar isto na escola. De que me serviu aquela aula? Podia ter faltado ou ter ficado no recreio a jogar ao berlinde ou à macaca. Dava o mesmo. Das duas maneiras chegaria onde estou hoje: já não salto à macaca e já não sei as fases da lua, portanto é indiferente hoje, mas na altura teria preferido a macaca, seguramente)
revezava o turno com as primas gordas e pendurava-se ali à espera do braço que lhe faltava, para poder pegar palavras ao colo.
Não sei se te diga que a espera é em vão. Ainda para mais, desconfio que parênteses aí em cima não servem para segurar grande coisa. Duas linhas já correm o risco de começar a fazer barriga. Num momento de fraqueza, ainda deixas cair alguma palavra, daquelas que mudam todo o sentido a uma frase. Os parênteses usam-se cá em baixo, escritos nos livros ou rabiscados em guardanapos de papel.
(Amo-te) por exemplo.
Os parênteses deste "amo-te" são como quem põe as mãos em concha e diz
- Espreita.
para prevenir que o senhor da mesa ao lado pense que é para ele.
Só cá em baixo podemos segurar linhas sem conta, com dois pequenos quartos minguantes ou crescentes. Mas mesmo cá em baixo, eu prefiro guardar os livros deitados, para não correr o risco de os encontrar de manhã, com as folhas brancas e palavras espalhadas por todo o lado.
Tanta conversa para nada. Mesmo que o teu par exista e que vinte linhas não façam barriga, o que é que estás a pensar meter lá dentro?
(Para lá da janela do meu quarto)?
ou
(amo-te)?
O que é que importa o que se vê para lá da janela do meu quarto? Ou se te amo?
Nada.
Fazemos assim, se prometeres não me deixar cair, deixo que me pegues ao colo. E se te portares bem, não te digo que és o único parênteses de luz do mundo.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mais camaradas, mais amigos e mais palhaços

- Olá bom dia, posso ter um capuccino por favor?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
(Hein?)
- Errr... não o tenho comigo, posso ter então um galão?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
- Errr... um expresso talvez...
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
- &*+%/=%*+$$%*+%$#""%%&)(=#!"=*+

- Olá bom dia, queria arranjar as mãos. Tem disponibilidade para as 11h?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
- &*+%/=%*+$$%*+%$#""%%&)(=#!"=*+
(reparem que saltei o "hein?")

- Olá bom dia...
- "Su numero de pasaporte por favor."
- Mas...
-"Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
(Hein?)

Não, os venezuelanos NÃO TÊM a vida TODA controlada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Camarada, amigo e um pouco palhaço

Na maioria dos os hotéis do mundo, existem letreiros para pendurar na porta do quarto, com uma mensagem diferente em cada uma das duas faces. De um lado
POR FAVOR NÃO INCOMODAR
e do outro
POR FAVOR ARRUME O QUARTO.
Para uma melhor e mais imediata leitura, cada uma destas faces tem geralmente uma cor diferente, ou qualquer coisa no seu desenho, que torne facilmente identificável o desejo do hóspede.
(não simpatizo nem um bocadinho com a palavra hóspede. lembro-me sempre de carraças e ténias) 
Esta leitura que se deseja fácil, serve para mim que quero pendurar rapidamente o letreiro sem usar muito o cérebro e também para a senhora da limpeza.
Dizia eu então e muito bem (isto é que é auto-estima), que este fenómeno acontece na maioria dos hotéis. Apenas na maioria. O hotel onde estou em Caracas, pertence infelizmente à minoria. A obsessão pelo vermelho é tanta por estas bandas, que os amigos de Chávez não conseguiram evitar fazer um letreiro vermelho dos dois lados, com minúsculas letras brancas com duas ordens opostas. De um lado
ENTRE
e do outro
NÃO ENTRE.
Bem sei que isto parece irrelevante num primeiro olhar, mas garanto que ao terceiro dia preocupada com o diabo do letreiro, passa a ser uma questão. Posso então dizer, que os meus dias neste hotel têm sido um verdadeiro inferno, por razões de cor partidária. Há quem diga que o facto de estar a chover torrencialmente e o exílio forçado dentro das ameias do hotel, por culpa do perigo ao virar de TODAS as esquinas, não ajudam e deixam-me tempo de sobra para pensar em coisas que não têm a menor importância, mas isso são as más línguas. Para mim o problema é claramente político.
E é por razões políticas, que a desgraçada da senhora da limpeza vai desenvolver miopia precoce e um valente problema de coluna, de tanto se agachar como quem espreita à fechadura, para poder ler com dificuldade, se deve ou não limpar aquele quarto. Isto claro se antes não lhe aparecer um hóspede
(e estas pragas que não me largam)
mais raivoso que eu, que se irrite de verdade, quando ela lhe bater à porta a horas impróprias, para "hacer la habitacion".

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Onde é que é mesmo o Equador?

No outro dia dei comigo a pensar que devia fazer uma lista com as minhas "não-determinações" para 2011. Um antídoto para a pressão que o final do ano traz consigo. Abri uma mensagem nova e comecei a escrever
- Eu não me vou inscrever no ginásio.
Alguns minutos depois,
- Eu não me vou inscrever no ginásio.
Outros tantos minutos mais tarde e... outra vez o ginásio.
Dei-me conta então, que apenas o ginásio era assunto que eu não queria determinar. Todos os outros me pareceram imprescindíveis. Ora, isto leva-me a crer, que a minha aversão, não é às determinações em si, mas sim à obrigatoriedade de as fazer em Dezembro. Como se houvesse uma linha que diz que a partir dali deve ou pode ser diferente. A linha que separa Dezembro de Janeiro é igual à que divide o Hemisfério Norte do Hemisfério Sul. São ambas imaginárias, o que permite que não existam, se não as quisermos imaginar. Não é fantástico?
Dezembro é um mês tão bom como os outros para determinações importantes. No meu caso é capaz de ser até um bocadinho pior, porque não consigo evitar que a pressão da linha imaginária, que não consigo ainda muito bem não imaginar, atrapalhe o processo.
Devia determinar coisas importantes. Independentemente do mês. Eu e todos.
Devíamos actualizar-nos constantemente, com a mesma naturalidade com que actualizamos o anti-vírus do nosso computador. Em ambos os casos, se não o fizermos, alguma coisa fica em risco. A diferença é que no caso do anti-vírus, o alerta aparece a piscar bem no meio do ecrã, e isso torna o risco real. Acabamos por actualizar a porcaria do anti-vírus e deixamo-nos em risco a nós próprios. Se isto não fosse humano, seria... estranho.
Por isso, o que vou fazer, é escrever a minha determinação em letras bem grossas e pendurá-la na porta do frigorífico, para que me entre pelos olhos dentro todos os dias, mesmo que essa determinação seja
- Eu não vou determinar nada para 2011

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sugus de fruta... (versão musicada)

Deram cabo dos Sugus e eu quero saber quem é o responsável. Tenho umas coisinhas para lhe dizer. Quem souber onde ele anda, faça-me o favor de lhe fazer chegar esta cartinha.

Caro assassino de memórias infantis,

Escrevo-lhe porque não lhe posso ir bater à porta, com um saco cheinho das novas embalagens de Sugus, para lhe dar uso semelhante ao que alguns agentes da lei dão a sacos cheios de laranjas (não sei se está a ver a ideia). Não pense que se mata assim uma coisa importante, sem se sofrer as consequências. Bem sei que estamos em Portugal, mas há coisas que nem neste quadradinho de terra sem culpa, podem passar impunes. Os Sugus são, para sua infelicidade, uma delas.
Imagino que tenha nascido na era pós-Sugus, por isso deixo-lhe aqui uma ideia daquilo que matou para que no mínimo se envergonhe:

- Um Sugus não era um simples caramelo de fruta.
- Um Sugus era um quadradinho colorido, deliciosa e irritantemente (há que admitir) bem embrulhado, cujas esquinas vivas do seu embrulho, eram capazes de ferir seriamente os sabugos dos mais distraídos, na fúria salivada de lhe chegar ao miolo.
- Um Sugus tinha não só a capa colorida devidamente prensada à matéria pegajosa do interior, mas também uma segunda camada de um papel branco supostamente (repito, supostamente) não aderente, que envolvia e prevenia que a capa exterior colorida, se agarrasse com unhas e dentes ao caramelo. Infelizmente já não era tão eficaz a desempenhar essa função consigo mesmo. Enfim, ninguém é perfeito.
- Um Sugus era portanto, um caramelo destinado a ser mastigado com restos teimosos de papel branco supostamente não aderente, mas não com bocados de papel colorido aderente.
- Um Sugus (vários, neste caso) , devidamente melado (melados, neste caso), depois de algumas horas no bolso das calças, ganhava (epá, acabaram-se os plurais, imagino que já tenha apanhado a ideia) um quê de Lego em versão comestível e servia perfeitamente para fazer torres gigantescas de caramelos empilhados dos mais variados sabores, a que alguns (eu e o grupo lá da rua) chamavam de mega-tuti-fruti, uma versão do Sugus, praticamente impossível de fazer caber na boca.

Ora, os seus (sim, seus, que meus é que eles não são) novos Sugus, arruinaram tudo isto.

- Os seus novos Sugus, são meros caramelos de fruta,
- Os seus novos Sugus, já não são quadrados (como é que se atreve?) e vêm embrulhados em papel colorido, é certo, porém sem esquinas vivas no embrulho. Vêm com duas viradas nas pontas à laia de embrulho banal, e bastam duas voltas bem dadas, para os desembrulhar.
- Os seus novos Sugus vêm embrulhados numa única camada de papel irritante e verdadeiramente (não deliciosamente) anti-aderente.
- Os seus novos sugos já não servem o propósito do mítico mega-tuti-fruti. Bom, na verdade até servem, pelo menos em teoria, porque na prática não dá vontade nenhuma de fazer torres com eles, da mesma forma que não se empilham caramelos espanhóis, entende?


Resumindo, os seus novos Sugus passaram a ser imediatos e sem esforço, iguais a tantos outros, o que lhes tirou metade da graça. E se eu quisesse resumir ainda mais dir-lhe-ia apenas:
Um Sugus tem sabor a,
morango (vermelho), laranja (cor-de-laranja), ananás (verde), limão (azul. sim, azul. não é lindo?) e hortelã-pimenta (brancos com letras verdes. Obrigada Pedro!) 
e não,
pêra, cereja, maçã, e muito menos limão com embalagem amarela!
Estamos entendidos?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Búzios urbanos

Búzios por todo o lado.
Foi isso que eu vi quando dobrei a esquina para aquela rua. Pilhas de búzios amontoados, como se o mar zangado os tivesse depositado todos ali, num golpe de onda à vela.
O mar zanga-se às vezes, fica branco cheio de espuma.
Nunca ninguém entendeu porque é que se zanga.
Nunca sequer ninguém deu importância à espuma da revolta.
Como não lhe vale chorar, porque ninguém consegue ver lágrimas no meio de uma imensidão de água, o mar decidiu encher-nos a rua de búzios.
E agora, quem tiver coragem que finja que não vê.
Ou melhor, monte-se numa nuvem e vá fingir para outro lado.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Par ou ímpar

Fico às escuras muitas vezes. Às voltas com problemas que na maior parte dos casos nunca existiram. Se existiram ou não, pouco importa para o caso, pois se fiquei sem luz...
Se for dia par (que é como quem diz, quando calha), não descanso enquanto não encontro motivo para o apagão.
Se for dia ímpar (que é como quem diz, quando calha), penso,
- Que se lixe, a escuridão é apenas um pano grosso.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mariquices

Eu amo o Pedro.
O Pedro ama-me a mim mas também ama o Miguel.
O Miguel deve agradecer a Deus por ser homem, pois se fosse mulher eu estaria neste momento a caminho de Sintra, para lhe enfiar umas valentes cabeçadas, não sem antes porém, enfiar umas valentes cabeçadas no Pedro.
Esta coisa das cabeçadas intriga-me. Dar uma cabeçada significa receber uma cabeçada, ainda que de forma involuntária. Dói aos dois. No calor do momento poderá doer um bocadinho menos ao indivíduo enraivecido (eu) mas na lavagem dos cestos, o galo é igual. Não seria mais eficiente uma paulada? Resumindo: graças a Deus para todos (para mim também, de acordo com a teoria das cabeçadas) que o Miguel é homem.
No fundo, fico grata por ter quem faça o Pedro feliz quando não estou cá. Especialmente se essa pessoa for um homem. Fico feliz por haver quem o faça rir e quem o deixe como eu o vi no outro dia, acabado de regressar de Sintra, qual miúdo de seis anos com uma fisga nova. A atropelar as palavras, cheio de coisas para contar e cheio de frases começadas  por "O Miguel..."
O Miguel fez...
O Miguel diz...
O Miguel disse...
ou
Mas o Miguel...
Confesso que a parte de "mas o Miguel..." me enerva um bocadinho. O "mas" pressupõem que o que eu digo, não está tão certo quanto o que o Miguel disse um dia. Independentemente de quem está objectivamente mais certo, eu gostava de acreditar, de um ponto de vista assumidamente deturpado pelo amor, que para o Pedro eu estou sempre mais certa que o resto do mundo (incluindo o sacana do Miguel). Mariquices...
Apesar do "mas", admito que quase amo o Miguel também.
Ou não.
Não, neste caso deixo isso do amor lá com eles e fico na bancada a assistir deliciada ao brilhozinho nos olhos do Pedro no regresso dos almoços em Sintra. Não vou precisar de perguntar se foi, ou se vai. Vou saber, porque "o Miguel...." vai muitas coisas nesses dias.
Miguel, empresto-te o Pedro um bocadinho, mas não te atrevas a dar-lhe cabo da fisga, senão vou a Sintra e acabo contigo à paulada.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Barrigas e ecrãs

- Come  a sopa ac, faz-te bem.
Assim estou eu aqui em frente a um ecrã vazio.
- Escreve qualquer coisa ac, faz-te bem.
E eu sem vontade nenhuma de comer a sopa. Só o cheiro me enjoa.
Quando se está assim esquisita, ou estragada, ou ausente, ou lá o que é, não apetece nada.
Os olhos pregados na profundidade que o ecrã do portátil não tem, mas parece ter, como que à procura de alguma coisa lá longe, num longe que afinal é aqui. Nos ecrãs antigos era mais verosímil acreditar que existia um mundo lá dentro, onde nos podíamos perder. Cabeçudos aqueles ecrãs, cheios de respiradores a arejar o mundo que fervilhava lá dentro, quais sarjetas da 33st em NY. Que abraços bons e cheios, de cada vez que era preciso mudar o ecrã de sítio. A parte de vidro ternamente encostada à maciez da barriga, a electricidade estática a embirrar com a camisola de lã, e os braços arqueados na sua extensão máxima a aconchegá-lo, até o pousar com cuidado na nova morada.
- Agora ficas aqui.
E um último empurrãozinho com a barriga, a rende-lo de vez ao seu posicionamento para os próximos tempos.
Numa visão romântica da coisa, acho que gostava mais dos ecrãs pré-históricos. Nestes fininhos de PC da moda, custa-me a acreditar que aconteça alguma coisa lá dentro.
Entre ecrãs finos e grossos, a inércia acaba por ganhar. O ecrã entra em modo de economia de bateria, e de repente, um espelho preto a reflectir a profundidade limitada da sala onde estou sentada; o meu olhar vazio, plano; a mão a segurar o queixo e a fazer-me rugas onde elas ainda não existem, e os olhos caídos na profundidade que ainda agora ali estava.
Acorda rapariga. Aqui não há sarjetas fumegantes onde se pode ouvir o metro a passar. Olha para a tua cara vazia, ganha vergonha e vai lá para fora viver o mundo a 3D.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Gosto mais de olás

Nunca sei muito bem como me despedir por escrito. Ao vivo é simples: um aperto de mão ou um beijo, depende. Ao vivo pode dar-se cor a um aperto de mão ou retirar-se excesso de intimidade a um beijo. Por escrito não. Pelo menos eu não sei.
Nunca imaginei encontrar limitações na escrita. Ou melhor, não queria nada encontrar limitações na escrita.
Desiludiste-me, ouviste?
Um beijinho é piroso e infantil.
Um beijo é de amor.
Um abraço é masculino.
Um até breve é quase sempre mentira.
Um aperto de mão não se escreve.
(Caramba, não há apertos de mão feitos de letras)
Desiludiste-me, ouviste?
Estava aqui a pensar que o beijinho ali de cima só é infantil e piroso, quando precedido do "um". Beijinho por si só é adulto, porém demasiado beto. Também não serve, portanto. O "um" é que dá idade ao beijo e não o "inho". Incrível.
Surpreendeste-me, ouviste?
Apesar de masculino, gosto do abraço escrito, mas a verdade é que ninguém anda por aí a abraçar-se. Abraçam-se os antigos companheiros de tropa, intercalando apertos com fortes palmadas nas costas, a confirmar a dureza que os fez sobreviver à guerra. Abraçamo-nos também todos muito nos velórios, para esconder as lágrimas nos ombros daqueles que não são netos do falecido.
(Acabo de sugerir que chorei no velório da minha avó. O que é mentira. Não chorei. Mas se gostasse de chorar em bando, teria chorado)
Um abraço é uma pieguice. Chorar abraçado é uma pieguice pior. Chorar abraçado no velório de uma avó velhíssima, que morreu sem dor, limitando-se a deixar de respirar,
(apre, que até morrer soubeste fazer bem)
é abaixo de cão.
Se fosse a tempo de te escrever uma carta para me despedir...
Ainda bem que não vou.