Tranquiliza-me muito saber que o miserável estado da Nação não é culpa do governo, mas sim da oposição. Apre, ainda bem que não votei em nenhum deles!
(Obrigada Zé, pelo teu esclarecimento)
(voltei :)
domingo, 10 de abril de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Chuva de morte (ou neve rasteira)
Ontem nevou junto ao chão.
Para os mais distraídos, choveu apenas.
Mas diz quem andou (atento) por Sintra, que as gotas de chuva se transformavam em flocos de neve pouco antes de se esborracharem no chão.
Estou aborrecida com a chuva, por ter a lata de reduzir a segundos um espectáculo assim. Parece que se zangou com o frio, que decidiu fazer birra e não lhe congelar as gotas a tempo. Da discussão resultou este nevar rasteiro, que só por óbvia falta do que fazer, ou algum atacador desapertado, chegaria a ser observado por alguém.
Pouco me importam estas desavenças domésticas. Continuo a achar que a chuva não tinha o direito de nevar apenas a um palmo do chão, e chego até a pensar, se não será isto uma vingança mesquinha, para com os mais distraídos. Uma forma de selecção bastante nazi, capaz de reservar naturalmente este espectáculo memorável, aos que são capazes de ver coisas assim pequeninas. Um grande nevão toda a gente vê. Mas e esta neve rasteira, capaz de se confundir com a neblina agarrada ao chão da manhã? E o mundo submerso do joelho para baixo, quem reparou?
Pode ser que a chuva se tenha zangado com o frio.
Pode ser que a chuva tenha decidido castigar os mais distraídos.
Pode até ser que a chuva tenha decidido apenas premiar os mais sensíveis.
Pode ser que a chuva tenha decidido castigar os mais distraídos.
Pode até ser que a chuva tenha decidido apenas premiar os mais sensíveis.
Pode ser.
Mas de repente dei comigo para aqui aflita, às voltas com a ideia de que esta história pode ser bem mais complicada.
E se se trataram de gotas kamikazes, arrependidas no último momento?
Gotas kamikazes que se cansaram da fatalidade de anos a fio em vôo picado para a morte, e ontem decidiram implodir-se em flocos de neve, como pipocas de algodão, na esperança inútil de que a leveza as salvasse da morte certa. Salvar não salvou, mas adiou. E assim ficaram para ali a pairar, baloiçando os últimos segundos, entre o descanso de só mais um bocadinho, e a fatalidade do reconhecimento da asneira
- Por que caraças fui eu saltar?
Tenho pena que tenhas saltado, mas tenho ainda mais pena que te tenhas implodido num floco de neve
-Para quê? Se já não havia nada a fazer. Para quê?
E agora estou para aqui irritada, por não ter estado em Sintra.
Desculpa.
Queria ter ido mais cedo, mas tive de passar no Banco para tratar dos papéis para o empréstimo da casa, lembras-te? A greve de comboios também não ajudou e depois encontrei o João. Mas foram só cinco minutos, juro. Queria falar comigo, nada de importante. Não tive como dizer que não. E depois sabes como é, conversa puxa conversa estava-me a soprar disparates ao ouvido, e sabes como é, conversa puxa conversa sobre como estão grandes os miúdos (o mais pequeno é a tua cara) e estávamos de mãos entrelaçadas, e o João
Queria ter ido mais cedo, mas tive de passar no Banco para tratar dos papéis para o empréstimo da casa, lembras-te? A greve de comboios também não ajudou e depois encontrei o João. Mas foram só cinco minutos, juro. Queria falar comigo, nada de importante. Não tive como dizer que não. E depois sabes como é, conversa puxa conversa estava-me a soprar disparates ao ouvido, e sabes como é, conversa puxa conversa sobre como estão grandes os miúdos (o mais pequeno é a tua cara) e estávamos de mãos entrelaçadas, e o João
- Podia ser nosso, o mais pequeno.
Fingi que fugia várias vezes, mas quando dei por mim tinha passado meia hora. Sabes como é, o tempo passa a correr. Mas não te preocupes com João, a sério. Lá acabei por conseguir fingir que fugia e enfiei-me no comboio apinhado de gente impaciente. Não te preocupes com o João, já te disse. Não vês que consegui meter-me no comboio, mesmo apinhado e mesmo a suspirar? Sabes como é. Deixa para lá isso do João por favor.
Com ou sem João, a verdade é que teria sempre chegado atrasada.
E assim foi.
E assim foi.
Quando aí cheguei, já não havia flocos de neve para salvar. Sintra estava já irremediavelmente coberta de um descanso eterno e molhado. Tinha caído a noite e as luzes dos automóveis reflectidas na chuva inerte do chão, deixavam bem clara a desgraça. Doeu-me que nenhum automobilista tivesse o cuidado de abrandar em sinal de respeito pelo vosso último suspiro. E deixei-me ficar ali a imaginar que se não fosse pelo João, teria chegado a tempo de me pôr de joelhos no chão e rabo para o ar, a deixar cair levemente nas mãos essas gotas kamikazes de esperança. Depois, deitava-as todas juntas num frasco e levava-as ao hospital. Ou então à feira popular. Têm lá uma daquelas rodas gigantes de fazer algodão doce. Deitava-as no buraquinho do açúcar, estendia-lhes um pauzinho como se faz aos periquitos, e levava-as para Sintra outra vez.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Pensamentos profundos (parte I)
Uma borboleta nunca é uma mosca,
nem mesmo quando pousa onde não deve.
nem mesmo quando pousa onde não deve.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Falta, não falta?
Há muitos anos o meu pai escreveu-me uma dedicatória que dizia
"O sol está longe mas é belo"
Na altura não compreendi exactamente o que queria dizer com aquilo. Hoje compreendo, mas de quando em quando, tenho vontade de voltar a ser a miúda sentada no banco traseiro da velha Diane a caminho do Porto, e perguntar
"Achas que falta muito?"
"O sol está longe mas é belo"
Na altura não compreendi exactamente o que queria dizer com aquilo. Hoje compreendo, mas de quando em quando, tenho vontade de voltar a ser a miúda sentada no banco traseiro da velha Diane a caminho do Porto, e perguntar
"Achas que falta muito?"
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Pontes de areia
Por muito que me apeteça culpar a areia da praia, hoje sei que não posso. Passaram-se anos que a culpei descaradamente sem pinga de remorso. Nunca se queixou. Limitava-se a ficar para ali estendida ao sol, que de tempos a tempos lhe aquecia as costas e lhe secava a água trazida pela maré.
Ocasionalmente, irritada com a passividade da areia que se preocupava demasiado com o bronze e muito pouco com os meus queixumes, culpava a minha irmã
- Bolas mana. Estragaste tudo outra vez.
(Bolas não é asneira, pois não?)
(Culpar a areia também não é asneira, pois não?)
(Mas culpar a irmã é, não é?)
Para fazer uma ponte de areia em condições é preciso alguma habilidade, muita paciência e areia no ponto certo, nem demasiado seca, nem demasiado molhada. Reunir as três num momento só, nem sempre é possível.
Por isso, por aqui continuo de joelhos na areia, a esgravatar pontezinhas que vão desabando por isto ou por aquilo. Por alguma onda desajeitada que não sabe ainda mergulhar bem e que descontrolada veio inundar onde não era suposto. Felizmente uma outra onda agarra-a logo pelo cachaço e leva-a de volta, para que repita o mergulho sem exageros. São matreiras estas ondas descontroladas que ainda não sabem mergulhar na medida certa. É preciso contar com elas, para que não nos apanhem despercebidas.
Atenta a tudo, continuo a arrastar montes de areia, já não apenas com as mãos, mas também com os braços, à laia de retroescavadora empenhada, na esperança de um dia, lá no fundinho do buraco, encontrar uma mão. E nesse momento, com o braço enterrado até ao ombro, sorrir-te, sem que aqueles que não têm as unhas desconfortavelmente cravadas de grãos de areia, entendam o motivo da felicidade. Ainda assim, se a ponte cair no momento crucial de largarmos as mãos e desenterrarmos os braços, continuaremos a ter motivos para sorrir. Basta subir ou descer um pouco mais no areal, e procurar a areia certa, porque a habilidade já a tivemos num aperto de mão areado e a paciência há-de chegar.
Ocasionalmente, irritada com a passividade da areia que se preocupava demasiado com o bronze e muito pouco com os meus queixumes, culpava a minha irmã
- Bolas mana. Estragaste tudo outra vez.
(Bolas não é asneira, pois não?)
(Culpar a areia também não é asneira, pois não?)
(Mas culpar a irmã é, não é?)
Para fazer uma ponte de areia em condições é preciso alguma habilidade, muita paciência e areia no ponto certo, nem demasiado seca, nem demasiado molhada. Reunir as três num momento só, nem sempre é possível.
Por isso, por aqui continuo de joelhos na areia, a esgravatar pontezinhas que vão desabando por isto ou por aquilo. Por alguma onda desajeitada que não sabe ainda mergulhar bem e que descontrolada veio inundar onde não era suposto. Felizmente uma outra onda agarra-a logo pelo cachaço e leva-a de volta, para que repita o mergulho sem exageros. São matreiras estas ondas descontroladas que ainda não sabem mergulhar na medida certa. É preciso contar com elas, para que não nos apanhem despercebidas.
Atenta a tudo, continuo a arrastar montes de areia, já não apenas com as mãos, mas também com os braços, à laia de retroescavadora empenhada, na esperança de um dia, lá no fundinho do buraco, encontrar uma mão. E nesse momento, com o braço enterrado até ao ombro, sorrir-te, sem que aqueles que não têm as unhas desconfortavelmente cravadas de grãos de areia, entendam o motivo da felicidade. Ainda assim, se a ponte cair no momento crucial de largarmos as mãos e desenterrarmos os braços, continuaremos a ter motivos para sorrir. Basta subir ou descer um pouco mais no areal, e procurar a areia certa, porque a habilidade já a tivemos num aperto de mão areado e a paciência há-de chegar.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
As borboletas da Joaninha
A joaninha fez um desenho que se chama "a mãe, a tia e as borboletas".
Eu sou a tia, mas com este desenho fiquei a sentir-me a borboleta.
Gosto de ser borboleta, especialmente se essa borboleta for da Joaninha.
Se calhar gosto mesmo é da Joaninha.
Aos cinco anos a joaninha ainda dá beijinhos cheios de baba, mas quando lhe perguntam
- Com essa baba toda, joaninha?
não tem vergonha de limpar desajeitadamente a boca à manga da camisa.
A Joaninha é como um esparguete de aletria, mais magrinho e mais doce do que o esparguete normal. Mas mesmo quando é especial, o esparguete é difícil de abraçar convenientemente, de tão magrinho e escorregadio.
Há dias fui à festa de anos da Joaninha e ela foi receber-me à porta, com uma saia cinzenta curtinha, pendurada ao pescoço por um daqueles peitilhos que mais parecem as costas de uma cadeira. Quis acreditar que teve o cuidado de vestir uma saia curtinha, para que se vissem bem os sapatos de salto alto, forrados a lantejoulas cor-de-rosa, que a tia borboleta lhe ofereceu no Natal, e comoveu-me que tivesse pendurado a saia ao pescoço com as costas de uma cadeira
(não acredito que seja confortável)
para que não houvesse a menor hipótese de num momento de brincadeira distraída, a saia tapar os sapatos.
Assim a encontrei à porta, com uma saia exageradamente curta a deixar ver a cicatriz em U dos collants que em tempos serviu para acomodar a fralda, uma cadeira pendurada ao pescoço, os pés às dez para as duas (dolorosamente) enfiados nos sapatos de princesa de acabamentos duvidosos, e claro, a manga da camisa pronta a limpar o excesso de baba, antes do beijinho da praxe.
- Hoje pode ser mesmo com essa baba toda, Joaninha.
Gosto de tudo na Joaninha, mas o que me deixa mesmo com o coração apertado é o sorriso.
A Joaninha ri-se com os dentes todos fora da boca, como se os mostrasse para inspecção materna antes de deitar
- Que bem lavadinhos estão, Joaninha. Estás uma crescida.
Eu acho que a Joaninha tem medo que duvidem que está a rir, por isso usa todas as suas armas (dentes, neste caso) sem excepção. Tem até o cuidado de fechar os olhos num franzido de chinesinha, para que a alma dos olhos não interfira com a árdua tarefa de rir sem margem para dúvidas.Desconfio ainda, que o excesso de baba serve para chamar a atenção do sorriso e topo-lhe o esforço malandro dos olhos, a borboletearem apertadinhos, entregues ao compromisso partilhado entre não se mostrarem, e conseguirem ver a reacção alheia.
Será que riem as borboletas?
No desenho dela, rio.
Eu sou a tia, mas com este desenho fiquei a sentir-me a borboleta.
Gosto de ser borboleta, especialmente se essa borboleta for da Joaninha.
Se calhar gosto mesmo é da Joaninha.
Aos cinco anos a joaninha ainda dá beijinhos cheios de baba, mas quando lhe perguntam
- Com essa baba toda, joaninha?
não tem vergonha de limpar desajeitadamente a boca à manga da camisa.
A Joaninha é como um esparguete de aletria, mais magrinho e mais doce do que o esparguete normal. Mas mesmo quando é especial, o esparguete é difícil de abraçar convenientemente, de tão magrinho e escorregadio.
Há dias fui à festa de anos da Joaninha e ela foi receber-me à porta, com uma saia cinzenta curtinha, pendurada ao pescoço por um daqueles peitilhos que mais parecem as costas de uma cadeira. Quis acreditar que teve o cuidado de vestir uma saia curtinha, para que se vissem bem os sapatos de salto alto, forrados a lantejoulas cor-de-rosa, que a tia borboleta lhe ofereceu no Natal, e comoveu-me que tivesse pendurado a saia ao pescoço com as costas de uma cadeira
(não acredito que seja confortável)
para que não houvesse a menor hipótese de num momento de brincadeira distraída, a saia tapar os sapatos.
Assim a encontrei à porta, com uma saia exageradamente curta a deixar ver a cicatriz em U dos collants que em tempos serviu para acomodar a fralda, uma cadeira pendurada ao pescoço, os pés às dez para as duas (dolorosamente) enfiados nos sapatos de princesa de acabamentos duvidosos, e claro, a manga da camisa pronta a limpar o excesso de baba, antes do beijinho da praxe.
- Hoje pode ser mesmo com essa baba toda, Joaninha.
Gosto de tudo na Joaninha, mas o que me deixa mesmo com o coração apertado é o sorriso.
A Joaninha ri-se com os dentes todos fora da boca, como se os mostrasse para inspecção materna antes de deitar
- Que bem lavadinhos estão, Joaninha. Estás uma crescida.
Eu acho que a Joaninha tem medo que duvidem que está a rir, por isso usa todas as suas armas (dentes, neste caso) sem excepção. Tem até o cuidado de fechar os olhos num franzido de chinesinha, para que a alma dos olhos não interfira com a árdua tarefa de rir sem margem para dúvidas.Desconfio ainda, que o excesso de baba serve para chamar a atenção do sorriso e topo-lhe o esforço malandro dos olhos, a borboletearem apertadinhos, entregues ao compromisso partilhado entre não se mostrarem, e conseguirem ver a reacção alheia.
Será que riem as borboletas?
No desenho dela, rio.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Amor gramatical
Não sei muito bem porquê, mas gosto sempre mais de usar os adjectivos depois dos substantivos.
Ou não.
Ou depende.
Depende, acho.
Sei que gosto da ideia de
uma coisa linda ser mais linda, que uma linda coisa.
(Está certa aquela vírgula ali, Pedro?)
Prefiro quando se referem a mim dizendo com uma ar ternurento
- Que coisa linda.
Desconfio porém, que não raras vezes o pensamento é mais
- Que linda coisa...
As coisas têm de facto uma relação conflituosa com os adjectivos. Se calhar amam-se e depois dá nisto.
Todas as coisas preferem ser "coisas grandes", a "grandes coisas". Uma "grande coisa...", especialmente se proferida com ar de desdém e reticências (é possível proferir reticências?), é na realidade uma coisa pequena.
Há dias em que a versatilidade me cansa.
Tempos houve em que me aborreceram os Legos. Ficava sempre um bocadinho ansiosa, quando me davam uma caixa de Lego com meia dúzia de peças que devidamente conjugadas, podiam construir trinta e nove carros diferentes. Que desgaste meu Deus!
Para o bem do descanso de muitos (acreditando que há por aí mais gente cansada da versatilidade das coisas) sugeria que os adjectivos beijassem de uma vez por todas as coisas na boca, e que em regime de excepção, não deixassem as coisas passar à frente nas portas.
Assim, teríamos sempre coisas lindas e coisas grandes.
É possível que se verifiquem momentos de amuo por parte das coisas, de cada vez que os adjectivos pouco cavalheiros lhes passarem à frente. Não desanimem meus senhores, não deverá ser nada que mais um beijo doce não resolva.
Ou não.
Ou depende.
Depende, acho.
Sei que gosto da ideia de
uma coisa linda ser mais linda, que uma linda coisa.
(Está certa aquela vírgula ali, Pedro?)
Prefiro quando se referem a mim dizendo com uma ar ternurento
- Que coisa linda.
Desconfio porém, que não raras vezes o pensamento é mais
- Que linda coisa...
As coisas têm de facto uma relação conflituosa com os adjectivos. Se calhar amam-se e depois dá nisto.
Todas as coisas preferem ser "coisas grandes", a "grandes coisas". Uma "grande coisa...", especialmente se proferida com ar de desdém e reticências (é possível proferir reticências?), é na realidade uma coisa pequena.
Há dias em que a versatilidade me cansa.
Tempos houve em que me aborreceram os Legos. Ficava sempre um bocadinho ansiosa, quando me davam uma caixa de Lego com meia dúzia de peças que devidamente conjugadas, podiam construir trinta e nove carros diferentes. Que desgaste meu Deus!
Para o bem do descanso de muitos (acreditando que há por aí mais gente cansada da versatilidade das coisas) sugeria que os adjectivos beijassem de uma vez por todas as coisas na boca, e que em regime de excepção, não deixassem as coisas passar à frente nas portas.
Assim, teríamos sempre coisas lindas e coisas grandes.
É possível que se verifiquem momentos de amuo por parte das coisas, de cada vez que os adjectivos pouco cavalheiros lhes passarem à frente. Não desanimem meus senhores, não deverá ser nada que mais um beijo doce não resolva.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Afiadela nº 33
Passar o ano é uma afiadela de lápis.
A cada ano, o cinzeiro mais cheio de aparas
e o lápis cada vez mais curtinho.
Não é possível escrever com aparas, é certo.
Mas só é possível escrever com o lápis afiado.
Bom Ano
A cada ano, o cinzeiro mais cheio de aparas
e o lápis cada vez mais curtinho.
Não é possível escrever com aparas, é certo.
Mas só é possível escrever com o lápis afiado.
Bom Ano
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
E se as janelas crescessem connosco?
Tenho saudades das janelas altas. Daquelas janelas onde só chegava em bicos de pés, ou em cima do banco pequenino com tampo de corda, suficientemente grande apenas, para caberem dois pés juntinhos a rezar. Em pequena o mundo acontecia-me muito pela janela. Hoje em dia fico pouco em casa, por isso acontece-me menos.
É pena.
Com o tempo as janelas mirraram, e olhar através delas passou a ser óbvio, frequente, comum e até inevitável. Como tudo o que se torna fácil, também olhar pela janela se tornou aborrecido, ou pelo menos, menos interessante.
É pena.
Olhar pela janela já foi de tudo para mim, desde um enorme entusiasmo, à fuga possível entre paredes. Hoje não é quase nada, apenas porque deixei de as ver, ou melhor, deixei de ver o que se passa através delas.
Quando eu era miúda, os meus pais mudaram-se para um subúrbio chato que já não era campo, mas ainda não era cidade. Como qualquer subúrbio recente, também naquele as pessoas ainda não tinham tido tempo de envelhecer, pelo que, vida de bairro era coisa que ali não havia. Em contrapartida, decorriam obras por todo lado, e entre os carros e camiões que por ali se passeavam atarefados, a levar cimento para dentro e lama para fora, havia um que me enchia as medidas e que baptizei de "carro pequenino".
(Que ingenuidade, bem sei)
O carro pequenino, era um tractor cor-de-laranja, realmente pequenino, apenas com um lugar para o condutor e um enorme (dentro da sua pequenez, claro) depósito para entulho à frente. De cada vez que se avistava aquele brinquedo na rua, tocava a sirene lá em casa
- Olhóóóóóó caaaaaaaaaaarro "paquanino"...
Ninguém se interessava muito por aquele assunto. Às vezes, com sorte, o pai ou a mãe (ou a avó, antes de ficar demasiado fraquinha) agarravam-me pela cintura e ajudavam-me no exercício hercúleo de me pendurar no parapeito, enquanto
- Olhóóóóóó caaaaaaaaaaarro "paquanino"...
Questiono-me frequentemente sobre o motivo daquele entusiasmo todo, e não chego a conclusão nenhuma.
Desta vez não é pena, é só assim.
O coração saltava pela boca e o corpo corria desalmadamente casa fora, à procura da janela onde a cada minuto, o carro "paquanino" cabia melhor. O coração só esmorecia, quando deixavam de existir janelas que o enquadrassem. Nesse momento, soltava as mãos doridas do parapeito, deixava o corpo escorregar parede abaixo até se enrolar num montinho de gente, e desejava ter uma casa de vidro, ou mais dez centímetros, ou sete bancos pequeninos empilhados, ou uma avó fortezinha,
(Nunca desejei ir para a rua atrás dele. Porque será? Se calhar por que sabia impossível o desejo)
ou um carro "paquanino" só para mim.
(Ter um carro "paquanino" só para mim também era um desejo impossível e ainda assim eu desejava-o.)
(E assim de repente fiquei sem argumento)
(E quem disse que eu queria argumentar?)
Daquelas janelas não se viam só carros "paquaninos".
Daquelas janelas também se conseguia ver, felizmente, a avó a descer a rua com um saco carregado com vinte e oito carcaças, dezanove pãezinhos de lenha, nove vianinhas e ainda um pão-de-deus dos grandes para o lanche. Eu, a adivinhar enervação, corria rapidamente a avisar o pai, para dar tempo que a irritação do exagero gritante lhe passasse, antes da avó chegar feliz com as suas sacadas de trigo. A partir de certa idade deixa de fazer sentido contrariar coisas sem importância, e eu orgulho-me de ter contribuído para que ela morresse feliz, a comprar quilos de pão que ninguém comia, sem nunca se dar conta que aquilo era um tremendo disparate.
Do carro paquanino, às vinte e oito carcaças da avó, passando pela carrinha do colégio que chegava vezes demais, muita coisa se passou através daquelas janelas, nos tempos em que só lhes chegava de bicos dos pés. Agora que não preciso de me pendurar no parapeito, a vida através das janelas cessou de me interessar. Por isso digo:
- As janelas deviam crescer connosco e deviam existir bancos pequeninos com tampos de corda por todo o lado.
- As janelas deviam crescer connosco e deviam existir bancos pequeninos com tampos de corda por todo o lado.
domingo, 26 de dezembro de 2010
El Loco
Numa altura em que me preparo para regressar a Barcelona (que saudades...), lembrei-me deste dia três de Setembro. Aqui fica, sem edições envergonhadas, tal e qual foi escrito há onze anos.
Barcelona, três de Setembro de 1999
Cheguei a Barcelona pela manhã; apressei-me em direcção a um táxi, entrei e disse ao motorista “à la Plaça d’Espanya” . Olhou-me pelo retrovisor com um ar desconfiado. O meu sotaque ridículo denunciou-me de imediato.
Não falámos durante toda a viagem. Paguei e saí.
Subi a Av. Reina Mª Cristina, em direcção ao palácio de Victória Eugénia. Quando cheguei à fonte Montjuic, fui surpreendida por dois caixotes de madeira avermelhada lindíssima. Ao desviar o olhar de um para o outro, deparei-me com o inesperado (não esperava encontrá-lo Já), o pavilhão de Barcelona.
Apressei-me na sua direcção por um descampado de terra batida, onde brincavam uma série de cães vadios. Fiquei com as sandálias todas sujas e os pés também.
Para a próxima vou pelo passeio.
Ao aproximar-me dei-me conta de uma figura magra e esguia, que andava para trás e para a frente entre o volume do pódio e a espessa linha branca da cobertura em levitação. Parecia um leão enjaulado, ou “El loco” de Picasso, só que usava óculos de sol.
Sacudi os pés antes de subir a escadaria de acesso.
Cruzei-me com a figura magra atrás descrita e já de costas ouvi um “Hola” ameaçador. Era ele. Virei-me, aparentemente tranquila e reparei que trazia um cartão de identificação pendurado no bolso dianteiro das calças. Era o porteiro.
Paguei 550 pesetas para entrar, isto para estudantes claro. Malditas autoridades!
Ainda no topo da escadaria confesso que tive uma certa dificuldade em decidir por onde começar. Mirei (porque estava em Espanha) à volta, rodando sobre mim própria e de imediato cruzei o meu olhar com a “Dawn”. Não me apressei na sua direcção. Rondei o pavilhão e ela aparecia e desaparecia.
Dançava para mim.
Sentei-me no banco de pedra, no extremo mais longe da dita figura. Olhei-a fixa e demoradamente. Fotografei-a.
Os cães vadios continuavam a brincar na terra batida, alheios ao que se passava a poucos metros deles.
Vida de cão.
Passado algum tempo alguém se sentou ao meu lado, tentando ver o que eu escrevia. Odiei-o e fui-me embora.
Passei por trás do muro de travertina que serve de encosto ao banco, em direcção à estátua. Ao aproximar-me, a sua imponência aumentava. Estava num pedestal.
Quando a sua superioridade se tornou insuportável, virei-lhe as costas e fui para o centro do pavilhão. Esperei cerca de quinze minutos até me poder sentar numa das duas cadeiras Barcelona. Aproveitei esse tempo para observar o espaço.
Existem apenas duas cadeiras e vários bancos. O desgaste das primeiras é muito superior ao dos bancos e conferiu-lhes não só uma textura mais marcada, como também uma sensação de colagem ao toque. Tenho as costas a descoberto e sobe-me um arrepio cada vez que me encosto ou desencosto. Sinto algo que se divide entre a repugnância e o prazer. Ainda assim, permaneço sentada.
El loco tem uma enorme dificuldade em controlar a entrada das pessoas. Existe uma nítida confusão entre o exterior e o interior. Choverá sobre a Dwan? Hoje não concerteza, estão 25ºC.
Continuo sentada na cadeira Barcelona. Estou cercada de predadores. Não eu, mas a cadeira. Estão furiosos porque nunca mais me levanto. Estou absorvida pela escrita e não lhes dou a menor importância. Não sinto o mais pequeno remorso por ser egoísta. Teoricamente existe ainda outra cadeira livre, mas está demasiado próxima da minha , o que na prática significa que ninguém se atreve a sentar.
Estão furiosos.
Devem ser franceses.
A mola do meu bloco de notas fez barulho, tenho a certeza de que todos se assustaram, mas não disseram nada. Reina o silêncio, ninguém se atreve a falar.
Aliás, El loco parece-me deprimido (talvez fale com ele mais tarde).
Uma jovem aproximou-se de mim com um movimento brusco, em tom de ameaça. Não lhe liguei nenhuma. Está de jeans e sapatos ténis. Tem um lenço pendurado numa das presilhas das calças que se confunde com a textura do ónix. É um daqueles lenços banais debotados em amarelos e castanhos.
Lá vem o francês outra vez!
Tenho cinco pessoas à minha volta, ninguém se atreve. Ops…uma sentou-se. Estúpida. Ainda bem que o escrevo para não ter de lho dizer. Ainda por cima é feia, está vestida de caqui. Não é feia por estar vestida de caqui, nem porque não seja bonita, é feia porque se sentou onde não devia.
Agora é que o francês está desolado.
El loco continua deprimido, falo com ele mais tarde.
Aparece um amigo da “feia porque se sentou onde não devia” e foram os dois para dois bancos. Acho que são portugueses.
Sinto que o francês está a chegar ao limite da sua paciência, está prestes a explodir. Encostou-se a uma coluna.
Estou no topo da hierarquia desde as 12:00 e já são 12:35.
O francês aguentou até às 12:39 e acabou de se sentar ao meu lado. Exala um cheiro levemente desagradável, mas não o suficiente para me mandar embora. É uma pena que ele tenha dado este passo, pois eu preparava-me para me levantar e observar o desenrolar dos acontecimentos.
Está desconfortavelmente sentado, com o queixo apoiado na mão direita…ops… foi-se embora, são 12:43, nem chegou a tirar a mochila que tinha às costas.
Só consigo ver as pernas do El loco, imóveis claro. Está sentado na sua cadeira à porta do pavilhão. Só se levanta quando alguém se aproxima. Coitado, falo com ele mais tarde.
Gente a mais, demasiado calor humano, demasiada intimidade com pessoas que não conheço de parte nenhuma. Vou à livraria.
13:25 – comprei um livro e estou agora sentada na enorme língua de pedra que aponta para a estátua. À minha frente está o espelho de água maior. Houve-se água a correr mas não se vê de onde é que ela vem.
Os planos verticais tendem a desmaterializar-se através de reflexos implícitos ou explícitos. Os espelhos de água enfatizam esta situação. É pena que esteja incoberto, senão os brilhos seriam mais exuberantes. Também podia chover.
Apesar de estar incoberto, El loco continua de óculos de sol: daqueles Rayban que os meus pais usavam há vinte anos atrás. Melhor dizendo: “no tempo da outra senhora”, ou ainda “no tempo da Maria Carqueja”. Não conheci nem uma nem outra. Nem tão pouco conheci alguém que as tivesse conhecido.
Mais tarde falo com El loco, talvez ele saiba.
Continua imóvel, na sua cadeira, seguramente deprimido, com os seus óculos de sol. Desconhece que a luz na retina estimula o cérebro a produzir uma qualquer substância de que desconheço o nome. Há que avisá-lo.
Mais tarde falo com ele.
Depois de sair do pavilhão
Fui até ao “Centro de cultura Contemporànea de Barcelona”. Começou a chover. Será que El loco continua de óculos?
Uma das peças expostas no CCCB é um ready-made que consiste numa cadeira, também do tempo da outra senhora, com um letreiro que dizia qualquer coisa como: “Sit down untill death tears you appart”. Lembrei-me d’ El loco. Nunca cheguei a falar com ele.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
O tempo e os gatos
Quando fico algum tempo sem viajar, esqueço-me de muitas coisas, todas importantes. Felizmente, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar um dia em que tropeço numa foto, num cheiro, numa memória,
(tropeça-se em memórias?)
e volta tudo intacto, como se não tivesse estado fugido tempo nenhum. Que grande lata!
Apesar da lata deste tudo, ainda bem que ele volta. De repente, é como se esta foto tivesse sido feita ontem, ou hoje, de tão entranhada que me está no corpo. Como se o tempo não tivesse passado por ela. E é também com lata que declaro com o coração,
- Esta foto foi feita hoje à tarde e estes miúdos nunca hão-de crescer.
O chato do tempo que insiste em correr, passa cuidadosamente pelas coisas importantes. Passa de fininho, como um gato em gincana delicada por entre os Limoges da Dona Efigénia.
(A Dona Efigénia é uma velha rechonchuda e enrugada que vive embrulhada num xaile morno, e pendurada na janela do primeiro andar que dá para o quintal da minha madrinha. Nunca lhe conheci gatos, mas aquela é seguramente uma velha de gatos)
O tempo, como os gatos das velhas, reconhece o valor das coisas. O tempo passa ao lado desta foto, tal como o gato da Dona Efigénia se enrola cuidadosamente nos vazios minúsculos entre os Limoges coloridos que animam a cómoda rococó. Chega a tocar-lhes com o pêlo e se ficarmos muito calados
(Muito calados? Calados, é calados! Protestaria a minha irmã)
quase ouvimos os passos dengosos e arrastados das pantufas do gato, a namorar as porcelanas, enquanto a espinha arqueada se acomoda à delicadeza do obstáculo.
A improbabilidade que faz com que aquele gato não faça as porcelanas em cacos, é a mesma que não deixa o tempo passar naquela foto.
O tempo é um senhor educado e inteligente. Sabe bem que neste caso, não tem outra hipótese senão passar ao largo, tirar o chapéu com cerimónia e dizer baixinho eternamente
- Olá meninos.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Eu, chata
Acabo de descobrir que sou uma chata e não estou nada satisfeita com a proeza.
Dei-me conta recentemente, que este blog tem 38 posts de "coisas sérias" e 7 posts de "coisas não muito sérias".
(????)
Quer eu queira quer não (e não quero), esta discrepância diz muito sobre mim e parece-me que não diz coisas lá muito boas. Diz pelo menos coisas demasiado sérias para o meu gosto, por incrível que pareça, bem sei.
O próprio nome das etiquetas é muito revelador. Do lado cinzento da vida temos uma etiqueta convicta de seu nome "coisas sérias", porém, do lado colorido da vida, temos um tímido "coisas não muito sérias".
- Há coisas absolutamente nada sérias, rapariga! E não há que ter medo de admitir.
Um post sobre bolos redondos e formas quadradas, por exemplo, não é uma coisa mesmo nada séria. Pelo menos ninguém acredita que seja.
Voltando a usar o meu lado "eu, avestruz", vou enfiar a cabeça num terreno (não lamacento, desta vez) e fingir que não me dei conta de nada disto. E levando ao limite esse meu lado "eu, avestruz", vou passar a etiquetar todos os meus posts (mesmo os sérios) com um descarado "coisas não muito sérias".
Há lá estado de alma mais maravilhoso que o da negação?
Duvido.
Dei-me conta recentemente, que este blog tem 38 posts de "coisas sérias" e 7 posts de "coisas não muito sérias".
(????)
Quer eu queira quer não (e não quero), esta discrepância diz muito sobre mim e parece-me que não diz coisas lá muito boas. Diz pelo menos coisas demasiado sérias para o meu gosto, por incrível que pareça, bem sei.
O próprio nome das etiquetas é muito revelador. Do lado cinzento da vida temos uma etiqueta convicta de seu nome "coisas sérias", porém, do lado colorido da vida, temos um tímido "coisas não muito sérias".
- Há coisas absolutamente nada sérias, rapariga! E não há que ter medo de admitir.
Um post sobre bolos redondos e formas quadradas, por exemplo, não é uma coisa mesmo nada séria. Pelo menos ninguém acredita que seja.
Voltando a usar o meu lado "eu, avestruz", vou enfiar a cabeça num terreno (não lamacento, desta vez) e fingir que não me dei conta de nada disto. E levando ao limite esse meu lado "eu, avestruz", vou passar a etiquetar todos os meus posts (mesmo os sérios) com um descarado "coisas não muito sérias".
Há lá estado de alma mais maravilhoso que o da negação?
Duvido.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Eu, avestruz
Caros leitores,
Vamos lá ver se a gente se entende:
- O botão "não gosto" deste blog, é pura retórica. Boa?
O meu lado avestruz prefere enfiar a cabeça num terreno lamacento, a saber que há pessoas que não gostam do que eu escrevo, porém o meu lado democrata não me permite ter apenas o botão "gosto".
(Não sei se estão a ver o dilema)
Por isso sugiro que não matem a avestruz democrata que há em mim.
Agradecida.
Vamos lá ver se a gente se entende:
- O botão "não gosto" deste blog, é pura retórica. Boa?
O meu lado avestruz prefere enfiar a cabeça num terreno lamacento, a saber que há pessoas que não gostam do que eu escrevo, porém o meu lado democrata não me permite ter apenas o botão "gosto".
(Não sei se estão a ver o dilema)
Por isso sugiro que não matem a avestruz democrata que há em mim.
Agradecida.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Era mais ou menos assim ) ou assim (
Ontem a lua estava magrinha que eu vi.
Raramente a vejo, mas ontem entrou-me pelos olhos dentro de tão estreitinha e bem desenhada que estava, numa magreza de luz afiada. Quarto minguante parece que se chama, ou crescente, não sei dizer.
(Nunca sei onde raio é que a lua é mentirosa, mas não deve ser aqui)
Pouco importa para o caso. Era assim uma tirinha encurvada, um parênteses de luz pendurado no céu. E como é que eu, que abuso descaradamente dos parênteses,
(Não por uma questão de estilo, mas por inabilidade ou da falta de paciência, para organizar ideias num texto)
(Prefiro que se trate de falta de paciência, mas desconfio que seja inabilidade)
nunca tinha reparado naquele ali perdido, sempre no mesmo sítio, ou quase no mesmo sítio,
(Para lá da janela do meu quarto, estão a ver?)
(Como se houvesse outro quarto. Ou outra janela. Para lá da janela chega, neste caso)
à espera que eu o visse, ou que alguém lhe encontrasse o par, para poder cumprir o seu dever e aconchegar palavras lá dentro. Hoje vi-o e tive vontade de lhe gritar
- JÁ TE Viiiiiiii.
e depois dizer baixinho
- Fica tranquila, se vir o teu par por aí, vou a correr arranjar umas palavras e montamos tudo no sítio. Não te preocupes que já te vi.
Esperei um pouco sentada no terraço a fazer-lhe companhia, por vergonha de todas as noites passadas que nem dei por ela. Volta não volta, murmurava-lhe
- Descansa. Agora que te vi não te largo.
Como se ela fosse a algum lado. Assim sozinha sem par, o trabalho dela é ficar quieta, aparecer ali de tantos em tantos dias, como um cão que volta não volta, vai ao quarto do dono que morreu, na esperança de lá o encontrar. Assim estava a lua magrinha, de tantos em tantos dias
(Porque é que eu não sei quantos dias são? Lembro-me de estudar isto na escola. De que me serviu aquela aula? Podia ter faltado ou ter ficado no recreio a jogar ao berlinde ou à macaca. Dava o mesmo. Das duas maneiras chegaria onde estou hoje: já não salto à macaca e já não sei as fases da lua, portanto é indiferente hoje, mas na altura teria preferido a macaca, seguramente)
revezava o turno com as primas gordas e pendurava-se ali à espera do braço que lhe faltava, para poder pegar palavras ao colo.
Não sei se te diga que a espera é em vão. Ainda para mais, desconfio que parênteses aí em cima não servem para segurar grande coisa. Duas linhas já correm o risco de começar a fazer barriga. Num momento de fraqueza, ainda deixas cair alguma palavra, daquelas que mudam todo o sentido a uma frase. Os parênteses usam-se cá em baixo, escritos nos livros ou rabiscados em guardanapos de papel.
(Amo-te) por exemplo.
Os parênteses deste "amo-te" são como quem põe as mãos em concha e diz
- Espreita.
para prevenir que o senhor da mesa ao lado pense que é para ele.
Só cá em baixo podemos segurar linhas sem conta, com dois pequenos quartos minguantes ou crescentes. Mas mesmo cá em baixo, eu prefiro guardar os livros deitados, para não correr o risco de os encontrar de manhã, com as folhas brancas e palavras espalhadas por todo o lado.
Tanta conversa para nada. Mesmo que o teu par exista e que vinte linhas não façam barriga, o que é que estás a pensar meter lá dentro?
Não sei se te diga que a espera é em vão. Ainda para mais, desconfio que parênteses aí em cima não servem para segurar grande coisa. Duas linhas já correm o risco de começar a fazer barriga. Num momento de fraqueza, ainda deixas cair alguma palavra, daquelas que mudam todo o sentido a uma frase. Os parênteses usam-se cá em baixo, escritos nos livros ou rabiscados em guardanapos de papel.
(Amo-te) por exemplo.
Os parênteses deste "amo-te" são como quem põe as mãos em concha e diz
- Espreita.
para prevenir que o senhor da mesa ao lado pense que é para ele.
Só cá em baixo podemos segurar linhas sem conta, com dois pequenos quartos minguantes ou crescentes. Mas mesmo cá em baixo, eu prefiro guardar os livros deitados, para não correr o risco de os encontrar de manhã, com as folhas brancas e palavras espalhadas por todo o lado.
Tanta conversa para nada. Mesmo que o teu par exista e que vinte linhas não façam barriga, o que é que estás a pensar meter lá dentro?
(Para lá da janela do meu quarto)?
ou
(amo-te)?
ou
(amo-te)?
O que é que importa o que se vê para lá da janela do meu quarto? Ou se te amo?
Nada.
Nada.
Fazemos assim, se prometeres não me deixar cair, deixo que me pegues ao colo. E se te portares bem, não te digo que és o único parênteses de luz do mundo.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Mais camaradas, mais amigos e mais palhaços
- Olá bom dia, posso ter um capuccino por favor?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
(Hein?)
- Errr... não o tenho comigo, posso ter então um galão?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
- Errr... um expresso talvez...
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
- &*+%/=%*+$$%*+%$#""%%&)(=#!"=*+
- Olá bom dia, queria arranjar as mãos. Tem disponibilidade para as 11h?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
- &*+%/=%*+$$%*+%$#""%%&)(=#!"=*+
(reparem que saltei o "hein?")
- Olá bom dia...
- "Su numero de pasaporte por favor."
- Mas...
-"Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
(Hein?)
Não, os venezuelanos NÃO TÊM a vida TODA controlada.
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
(Hein?)
- Errr... não o tenho comigo, posso ter então um galão?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
- Errr... um expresso talvez...
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
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- Olá bom dia, queria arranjar as mãos. Tem disponibilidade para as 11h?
- "Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
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(reparem que saltei o "hein?")
- Olá bom dia...
- "Su numero de pasaporte por favor."
- Mas...
-"Claro que sí. Su numero de pasaporte por favor."
(Hein?)
Não, os venezuelanos NÃO TÊM a vida TODA controlada.
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