terça-feira, 30 de agosto de 2011

Do lameiro com amor

Talvez seja porque já não chove tanto como antigamente.
Ou talvez seja só porque já não é antigamente.
Antigamente inundavam-se os campos de cultivo com a água que escorria contínua e abundante das levadas. Os campos alagados explodiam em minúsculas margaridas de agradecimento na Primavera, e as pedras toscas que desenhavam os canais de rega forravam-se de musgo escorregadio para que a água escorresse sem dificuldade. Não se podia caminhar nos lameiros sem galochas, nem nas pedras dos canais sem cair. Estava tudo pensado ao pormenor para que a água seguisse o seu caminho livremente.
A mim parece-me que continua a chover tanto como antigamente, mas os prados devem estar doentes, só pode. Porque raio haveriam de estar a soro se assim não fosse? Quilómetros sem fim de mangueiras furadas, pretas e gordas, invadiram os campos. Amassam o pasto que não quer ser amassado, e penduram-se deselegantemente ao pescoço das amendoeiras, que só não as deixam cair por não saberem baixar os braços.
A água em tempos generosa, pinga agora em esforço apenas onde faz falta.
Não fazem falta as margaridas?
Não fazem falta as vacas barrosãs com meias de lama até ao joelho?
(Eu avisei. Não se pode caminhar nos lameiros sem galochas)
Não faz falta o musgo verde para o presépio?
E o presépio meu Deus? Que será agora do presépio?
Quero lá saber. O que eu queria mesmo era falar de amor, mas saiu-me isto das mangueiras...
Parece que no Natal há amor.
Por agora serve.

domingo, 21 de agosto de 2011

Quase fácil

De tempos a tempos, sem saber muito bem à procura de quê, volto aos meus livros infantis. Encontro sempre a resposta, o que no caso é fácil, uma vez que não sabia a pergunta. Se isto fosse um teste de Língua Portuguesa, tinha o "Insatisfaz" garantido, por não saber fazer corresponder a esta resposta,  a questão respectiva. Mas quem precisa de uma pergunta perante uma resposta destas?
- Ana Sofia, uma resposta é sempre consequência de uma pergunta.
Nem sempre professora, nem sempre.
Com a idade chegam-nos as artrites e as palavras caras. Tanto umas como outras acabam por nos arruinar a existência. As primeiras por degradação clara das capacidades físicas, e as segundas por obstrução óbvia à transmissão da mensagem.
- A mensagem é o que o emissor transmite ao receptor, não é professora?
As palavras caras, compridas e engalanadas, são seguramente o ruído. Servem mais para enobrecer o discurso e o ego de quem as usa, do que para esclarecer as dúvidas de quem as ouve. Tenho pena que me cheguem as artrites, mas fico bem mais desolada por saber que me chegarão também palavras em vestido de noite. O que quero dizer é geralmente simples, e por isso não precisa de brincos.
Gosto.
Amo.
Quero.
Não gosto.
Não quero.
Fico.
Vou.
Sim.
Caso sim.
Se uma coisa é quase a melhor coisa, é porque seria a melhor coisa se tal conceito existisse. Como existem várias melhores coisas, partilham todas o quase primeiro lugar "ex-aequo" da melhor coisa do mundo. Gosto de pensar que seria preciso um pódio gigante para dar medalhas a essas coisas todas. Gosto ainda mais de imaginar que te podia pôr lá num cantinho, na esperança que o júri não desse conta que não és uma quase melhor coisa, mas sim só a minha quase melhor coisa. Com sorte, ninguém dava por nada e trazíamos a medalha para casa. E se alguém um dia questionasse o prémio, eu diria tão simplesmente,
- Esta é a minha melhor coisa, o que a qualifica para quase melhor coisa do mundo.
Era esta a pergunta, professora?
Não sei se chega para o "Muito Bom", mas foi quase a melhor que consegui encontrar para te dizer isto.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"TO bacco" e "TO be"

Desenvolvi recentemente uma paixão improvável por cigarros americanos esquisitos. Tudo por culpa de uma colecção de caixas de tabaco, que nem sequer me pertence. Desde então, tenho-me dedicado à fútil tarefa de escolher maços pela sua aparência.
- Queria um daqueles azul, com o índio na caixa, por favor.
- Qual? O American Spirit?
- Sim, esse, o do índio.
Contingências económicas motivaram-me a fumá-los todos.
Este do índio dizia na caixa, em letras minúsculas:
"100% additive free - natural tobacco"
Inocente, entendia-se. Por isso fumei-o sem culpa.
Talvez não tenha aditivos. Talvez até seja natural. Mas o que os senhores da tabaqueira não sabem, é que o tabaco natural pode ser apenas naturalmente aditivo. E foi.
O tempo de um tabaco natural corre devagarinho (corre devagarinho?), que é como quem diz, passeia-se-nos tranquilamente entre os dedos, sem aditivos comburentes que o apressem. Chega a apagar-se se nos deixamos embalar pelo seu caminhar tranquilo até ao filtro. Pode ser enervante que um cigarro se apague antes de tempo. Pode ser, mas só no caso de cigarros comuns, frenéticos e galopantes. Neste caso não pode. Neste caso é tão somente uma oportunidade de tactear uma vez mais o isqueiro perdido nas almofadas do sofá, e acendê-lo outra vez, lentamente, sem merdas que me apressem.
Um dia quero ser um American Spirit. Aquele do índio na caixa. Aquele que corre devagarinho.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Nada, só coisas

Não era bem um gira-discos, porque ninguém recebe um gira-discos aos seis anos. Quis o destino, que desta feita se fez representar pelo desejo dos meus pais, que a minha avó me oferecesse um gira-discos no dia do meu sexto aniversário. Como a mim ninguém me perguntou nada, fiquei pregada ao chão, a olhar boquiaberta aquela caixa metálica, à procura do buraco por onde haveriam de sair bonecas com uma fita plástica atada à volta da cabeça para segurar o cabelo, ou pequenos carros de metal pintado destinados a alargar o parque automóvel da minha estação de serviço de dois andares (com elevador e tudo), ou qualquer outra coisa colorida capaz de animar o aniversário de um ser de apenas seis anos. Podiam até ser serpentinas, ou rebuçados pegajosos...Qualquer coisa... Mas nada! Tudo cinzento e estático. Eu e o meu novo gira-discos, frente a frente, incrédulos e indiferentes ao rebuliço infantil dos meus pais, que festejavam ruidosamente o presente que receberam sem precisarem de fazer anos.
- Boa A.C., que surpresa tão grande! Dá um beijinho doce à avó.
E eu a pensar
- Eu? Porquê?
Dei.
Não era aquele o presente que esperava receber no meu aniversário, e tenho a certeza que aquele desgraçado reluzente também não fazia grande questão de ter como dona, uma pirralha de dentes a abanar, que o mais certo servia dar-lhe cabo da agulha. Um gira-discos que se preze não toca discos de histórias infantis, ou músicas de Natal do coro de Santo Amaro de Oeiras. Mas ele ao menos tinha escolha. Os meus pais preenchiam seguramente os requisitos necessários, para satisfazer as necessidades básicas de um gira-discos de ouvido educado. Já eu, teria de me contentar com as camisolas interiores e os collants grossíssimos que as minhas tias haveriam de trazer, e rezar para que me trouxessem ao menos, meia dúzia de rebuçados para a tosse.
E assim foi. As tias chegaram, vestiram-me e despiram-me trinta e nove camisolas diferentes, mais uns tantos pares de collants quentinhos, numa verdadeira operação relâmpago que me deixou as orelhas a arder com tanto puxão, e o cabelo feito num fanico, por conta da electricidade estática.
- Ajuda A.C.! Por amor de Deus, já és crescidinha! - Diziam enquanto se acotovelavam para vestir a menina.
 Apesar do meu estado de desolação profunda, e com os tótós mais ou menos fora de sítio, aproveitava os breves intervalos entre um puxão e o outro, para ir deitando um olho vigilante ao meu novo brinquedo improvável.
De cada vez que a minha cabeça nascia a custo, por entre as golas justas e ásperas das inúmeras camisolas a prova, virava o pescoço à pressa, e pensava
- Pelo menos tem botões. E muitos.
Mais uma orelha quase arrancada, e
- Talvez melhore, se o pintar de cor-de-rosa.
Outro tótó assassinado, e
- Não vai poder ser com lápis...
Felizmente, lembrei-me a tempo da tragédia que foi lá em casa, quando decidi personalizar (vandalizar, nas palavras dos meus pais) as paredes recém-pintadas do meu quarto, com um marcador vermelho de ponta bem grossa. O gira-discos era meu, é certo. Mas o quarto também, e nem isso atenuou a minha pena na altura. Na dúvida, não arrisquei.
Resignada à fatalidade irremediável do meu dia de aniversário, passei o resto da tarde a comer quadradinhos de chocolate, embrulhados em pratas coloridas, que posteriormente alisava com a unha do polegar.
- Que estás a fazer A.C.?
- Nada. Coisas...
Porque raio me haveriam de perguntar agora fosse o que fosse, se se tinham esquecido de me fazer uma pergunta tão simples quanto
- Já pensaste o que queres para os teus anos?
Como é que eu ia explicar lá na escola que tinha recebido como presente... um gira-discos?
Deram-me uma coisa que eu não entendia, e agora era também isso que eu estava a fazer: coisas que eles não entendiam.
- Levanta-te A.C., vamos pôr o bolo na mesa para cantar os parabéns.
Bom, pelo menos havia bolo.
Como seria de esperar, o gira-discos passou a ser da casa e não meu, tal como o aspirador ou a máquina de lavar. Se pudesse levava-o debaixo do braço para todo o lado, mas os meus direitos sobre aquele objecto enorme e pesado, resumia-se a ter preferência na hora de colocar cuidadosamente a agulha sobre o disco já a rodar.
A raiva foi-se com o passar das semanas, e a certa altura dei por mim encantada a observar o balanço elegante do disco, sob a garra afiada da agulha. Pouco me interessava a música que dali saia, fascinava-me sim todo o processo envolvido. Punha e tirava discos consecutivamente, ordenava o girar com um simples movimento do braço da agulha, delirava com o avô da Heidi a gritar pela neta com uma voz esganiçada por conta das rotações trocadas... E quando o chão da sala estava coberto de rodelas pretas de núcleo colorido, aparecia a mãe os gritos a exigir arrumação. Entretinha-me então, horas a fio, a limpar o pó aos vinis. Era preciso muito cuidado. O meu dedo indicador minúsculo cabia na perfeição no buraco central do disco, e sobrava-me apenas uma mão para desenhar círculos perfeitos, com uma espécie de ferro-de-engomar minúsculo com base de veludo preto, certificando-me que nem uma poeira restava na superfície lustrosa onde se escondia a música. Quando não restavam dúvidas de que estava imaculada, guardava-o gentilmente no pedaço de cartão que lhe servia de capa.
Há dias, numa visita à casa de férias, dei com o gira-discos velho, cheio de pó e encostado a um canto. Tinham-lhe posto um naperon de crochê em cima, para lhe esconder as feridas. E perguntei-me:
Por que raio não está o gira-discos na casa dele?
ou seja
Por que raio não está o gira-discos em minha casa?
Não gostei de receber um gira-discos aos seis anos, é certo. Mas quase trinta anos depois, fiquei com um friozinho na barriga ao reencontrar o gira-discos que a minha avó me deu.
Desta vez fui eu que recebi um presente sem fazer anos.
E se na altura, do alto dos meus insignificantes seis anos, cheguei a sentir alguma piedade pela desadequação ignorante da tua escolha, hoje sinto absoluta piedade pela minha própria ignorância.
Tinhas razão. É que um gira-discos dura para sempre, e tu sabias disso muito bem

domingo, 10 de abril de 2011

Pensamentos profundo (parte II)

Tranquiliza-me muito saber que o miserável estado da Nação não é culpa do governo, mas sim da oposição. Apre, ainda bem que não votei em nenhum deles!
(Obrigada Zé, pelo teu esclarecimento)

(voltei :)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Chuva de morte (ou neve rasteira)

Ontem nevou junto ao chão.
Para os mais distraídos, choveu apenas.
Mas diz quem andou (atento) por Sintra, que as gotas de chuva se transformavam em flocos de neve pouco antes de se esborracharem no chão.
Estou aborrecida com a chuva, por ter a lata de reduzir a segundos um espectáculo assim. Parece que se zangou com o frio, que decidiu fazer birra e não lhe congelar as gotas a tempo. Da discussão resultou este nevar rasteiro, que só por óbvia falta do que fazer, ou algum atacador desapertado, chegaria a ser observado por alguém.
Pouco me importam estas desavenças domésticas. Continuo a achar que a chuva não tinha o direito de nevar apenas a um palmo do chão, e chego até a pensar, se não será isto uma vingança mesquinha, para com os mais distraídos. Uma forma de selecção bastante nazi, capaz de reservar naturalmente este espectáculo memorável, aos que são capazes de ver coisas assim pequeninas. Um grande nevão toda a gente vê. Mas e esta neve rasteira, capaz de se confundir com a neblina agarrada ao chão da manhã? E o mundo submerso do joelho para baixo, quem reparou?
Pode ser que a chuva se tenha zangado com o frio.
Pode ser que a chuva tenha decidido castigar os mais distraídos.
Pode até ser que a chuva tenha decidido apenas premiar os mais  sensíveis.
Pode ser.
Mas de repente dei comigo para aqui aflita, às voltas com a ideia de que esta história pode ser bem mais complicada.
E se se trataram de gotas kamikazes, arrependidas no último momento?
Gotas kamikazes que se cansaram da fatalidade de anos a fio em vôo picado para a morte, e ontem decidiram implodir-se em flocos de neve, como pipocas de algodão, na esperança inútil de que a leveza as salvasse da morte certa. Salvar não salvou, mas adiou. E assim ficaram para ali a pairar, baloiçando os últimos segundos, entre o descanso de só mais um bocadinho, e a fatalidade do reconhecimento da asneira
- Por que caraças fui eu saltar?
Tenho pena que tenhas saltado, mas tenho ainda mais pena que te tenhas implodido num floco de neve
-Para quê? Se já não havia nada a fazer. Para quê?
E agora estou para aqui irritada, por não ter estado em Sintra.
Desculpa.
Queria ter ido mais cedo, mas tive de passar no Banco para tratar dos papéis para o empréstimo da casa, lembras-te? A greve de comboios também não ajudou e depois encontrei o João. Mas foram só cinco minutos, juro. Queria falar comigo, nada de importante. Não tive como dizer que não. E depois sabes como é, conversa puxa conversa estava-me a soprar disparates ao ouvido, e sabes como é, conversa puxa conversa sobre como estão grandes os miúdos (o mais pequeno é a tua cara) e estávamos de mãos entrelaçadas, e o João
- Podia ser nosso, o mais pequeno.
Fingi que fugia várias vezes, mas quando dei por mim tinha passado meia hora. Sabes como é, o tempo passa a correr. Mas não te preocupes com João, a sério. Lá acabei por conseguir fingir que fugia e enfiei-me no comboio apinhado de gente impaciente. Não te preocupes com o João, já te disse. Não vês que consegui meter-me no comboio, mesmo apinhado e mesmo a suspirar? Sabes como é. Deixa para lá isso do João por favor.
Com ou sem João, a verdade é que teria sempre chegado atrasada.
E assim foi.
Quando aí cheguei, já não havia flocos de neve para salvar. Sintra estava já irremediavelmente coberta de um descanso eterno e molhado. Tinha caído a noite e as luzes dos automóveis reflectidas na chuva inerte do chão, deixavam bem clara a desgraça. Doeu-me que nenhum automobilista tivesse o cuidado de abrandar em sinal de respeito pelo vosso último suspiro. E deixei-me ficar ali a imaginar que se não fosse pelo João, teria chegado a tempo de me pôr de joelhos no chão e rabo para o ar, a deixar cair levemente nas mãos essas gotas kamikazes de esperança. Depois, deitava-as todas juntas num frasco e levava-as ao hospital. Ou então à feira popular. Têm lá uma daquelas rodas gigantes de fazer algodão doce. Deitava-as no buraquinho do açúcar, estendia-lhes um pauzinho como se faz aos periquitos, e levava-as para Sintra outra vez.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Falta, não falta?

Há muitos anos o meu pai escreveu-me uma dedicatória que dizia
"O sol está longe mas é belo"
Na altura não compreendi exactamente o que queria dizer com aquilo. Hoje compreendo, mas de quando em quando, tenho vontade de voltar a ser a miúda sentada no banco traseiro da velha Diane a caminho do Porto, e perguntar
"Achas que falta muito?"

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pontes de areia

Por muito que me apeteça culpar a areia da praia, hoje sei que não posso. Passaram-se anos que a culpei descaradamente sem pinga de remorso. Nunca se queixou. Limitava-se a ficar para ali estendida ao sol, que de tempos a tempos lhe aquecia as costas e lhe secava a água trazida pela maré.
Ocasionalmente, irritada com a passividade da areia que se preocupava demasiado com o bronze e muito pouco com os meus queixumes, culpava a minha irmã
- Bolas mana. Estragaste tudo outra vez.
(Bolas não é asneira, pois não?)
(Culpar a areia também não é asneira, pois não?)
(Mas culpar a irmã é, não é?)
Para fazer uma ponte de areia em condições é preciso alguma habilidade, muita paciência e areia no ponto certo, nem demasiado seca, nem demasiado molhada. Reunir as três num momento só, nem sempre é possível.
Por isso, por aqui continuo de joelhos na areia, a esgravatar pontezinhas que vão desabando por isto ou por aquilo. Por alguma onda desajeitada que não sabe ainda mergulhar bem e que descontrolada veio inundar onde não era suposto. Felizmente uma outra onda agarra-a logo pelo cachaço e leva-a de volta, para que repita o mergulho sem exageros. São matreiras estas ondas descontroladas que ainda não sabem mergulhar na medida certa. É preciso contar com elas, para que não nos apanhem despercebidas.
Atenta a tudo, continuo a arrastar montes de areia, já não apenas com as mãos, mas também com os braços, à laia de retroescavadora empenhada, na esperança de um dia, lá no fundinho do buraco, encontrar uma mão. E nesse momento, com o braço enterrado até ao ombro, sorrir-te, sem que aqueles que não têm as unhas desconfortavelmente cravadas de grãos de areia, entendam o motivo da felicidade. Ainda assim, se a ponte cair no momento crucial de largarmos as mãos e desenterrarmos os braços, continuaremos a ter motivos para sorrir. Basta subir ou descer um pouco mais no areal, e procurar a areia certa, porque a habilidade já a tivemos num aperto de mão areado e a paciência há-de chegar.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

As borboletas da Joaninha

A joaninha fez um desenho que se chama "a mãe, a tia e as borboletas".
Eu sou a tia, mas com este desenho fiquei a sentir-me a borboleta.
Gosto de ser borboleta, especialmente se essa borboleta for da Joaninha.
Se calhar gosto mesmo é da Joaninha.
Aos cinco anos a joaninha ainda dá beijinhos cheios de baba, mas quando lhe perguntam
- Com essa baba toda, joaninha?
não tem vergonha de limpar desajeitadamente a boca à manga da camisa.
A Joaninha é como um esparguete de aletria, mais magrinho e mais doce do que o esparguete normal. Mas mesmo quando é especial, o esparguete é difícil de abraçar convenientemente, de tão magrinho e escorregadio.
Há dias fui à festa de anos da Joaninha e ela foi receber-me à porta, com uma saia cinzenta curtinha, pendurada ao pescoço por um daqueles peitilhos que mais parecem as costas de uma cadeira. Quis acreditar que teve o cuidado de vestir uma saia curtinha, para que se vissem bem os sapatos de salto alto, forrados a lantejoulas cor-de-rosa, que a tia borboleta lhe ofereceu no Natal, e comoveu-me que tivesse pendurado a saia ao pescoço com as costas de uma cadeira
(não acredito que seja confortável)
para que não houvesse a menor hipótese de num momento de brincadeira distraída, a saia tapar os sapatos.
Assim a encontrei à porta, com uma saia exageradamente curta a deixar ver a cicatriz em U dos collants que em tempos serviu para acomodar a fralda, uma cadeira pendurada ao pescoço, os pés às dez para as duas (dolorosamente) enfiados nos sapatos de princesa de acabamentos duvidosos, e claro, a manga da camisa pronta a limpar o excesso de baba, antes do beijinho da praxe.
- Hoje pode ser mesmo com essa baba toda, Joaninha.
Gosto de tudo na Joaninha, mas o que me deixa mesmo com o coração apertado é o sorriso.
A Joaninha ri-se com os dentes todos fora da boca, como se os mostrasse para inspecção materna antes de deitar
- Que bem lavadinhos estão, Joaninha. Estás uma crescida.
Eu acho que a Joaninha tem  medo que duvidem que está a rir, por isso usa todas as suas armas (dentes, neste caso) sem excepção. Tem até o cuidado de fechar os olhos num franzido de chinesinha, para que a alma dos olhos não interfira com a árdua tarefa de rir sem margem para dúvidas.Desconfio ainda, que o excesso de baba serve para chamar a atenção do sorriso e topo-lhe o esforço malandro dos olhos, a borboletearem apertadinhos, entregues ao compromisso partilhado entre não se mostrarem, e conseguirem ver a reacção alheia.
Será que riem as borboletas?
No desenho dela, rio.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Amor gramatical

Não sei muito bem porquê, mas gosto sempre mais de usar os adjectivos depois dos substantivos.
Ou não.
Ou depende.
Depende, acho.
Sei que gosto da ideia de
uma coisa linda ser mais linda, que uma linda coisa.
(Está certa aquela vírgula ali, Pedro?)
Prefiro quando se referem a mim dizendo com uma ar ternurento
- Que coisa linda.
Desconfio porém, que não raras vezes o pensamento é mais
- Que linda coisa...
As coisas têm de facto uma relação conflituosa com os adjectivos. Se calhar amam-se e depois dá nisto.
Todas as coisas preferem ser "coisas grandes", a "grandes coisas". Uma "grande coisa...", especialmente se proferida com ar de desdém e reticências (é possível proferir reticências?), é na realidade uma coisa pequena.
Há dias em que a versatilidade me cansa.
Tempos houve em que me aborreceram os Legos. Ficava sempre um bocadinho ansiosa, quando me davam uma caixa de Lego com meia dúzia de peças que devidamente conjugadas, podiam construir trinta e nove carros diferentes. Que desgaste meu Deus!
Para o bem do descanso de muitos (acreditando que há por aí mais gente cansada da versatilidade das coisas) sugeria que os adjectivos beijassem de uma vez por todas as coisas na boca, e que em regime de excepção, não deixassem as coisas passar à frente nas portas.
Assim, teríamos sempre coisas lindas e coisas grandes.
É possível que se verifiquem momentos de amuo por parte das coisas, de cada vez que os adjectivos pouco cavalheiros lhes passarem à frente. Não desanimem meus senhores, não deverá ser nada que mais um beijo doce não resolva.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Afiadela nº 33

Passar o ano é uma afiadela de lápis.
A cada ano, o cinzeiro mais cheio de aparas
e o lápis cada vez mais curtinho.
Não é possível escrever com aparas, é certo.
Mas só é possível escrever com o lápis afiado.

Bom Ano

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

E se as janelas crescessem connosco?

Tenho saudades das janelas altas. Daquelas janelas onde só chegava em bicos de pés, ou em cima do banco pequenino com tampo de corda, suficientemente grande apenas, para caberem dois pés juntinhos a rezar. Em pequena o mundo acontecia-me muito pela janela. Hoje em dia fico pouco em casa, por isso acontece-me menos.
É pena.
Com o tempo as janelas mirraram, e olhar através delas passou a ser óbvio, frequente, comum e até inevitável. Como tudo o que se torna fácil, também olhar pela janela se tornou aborrecido, ou pelo menos, menos interessante.
É pena.
Olhar pela janela já foi de tudo para mim, desde um enorme entusiasmo, à fuga possível entre paredes. Hoje não é quase nada, apenas porque deixei de as ver, ou melhor, deixei de ver o que se passa através delas.
Quando eu era miúda, os meus pais mudaram-se para um subúrbio chato que já não era campo, mas ainda não era cidade. Como qualquer subúrbio recente, também naquele as pessoas ainda não tinham tido tempo de envelhecer, pelo que, vida de bairro era coisa que ali não havia. Em contrapartida, decorriam obras por todo lado, e entre os carros e camiões que por ali se passeavam atarefados, a levar cimento para dentro e lama para fora, havia um que me enchia as medidas e que baptizei de "carro pequenino".
(Que ingenuidade, bem sei)
O carro pequenino, era  um tractor cor-de-laranja, realmente pequenino, apenas com um lugar para o condutor e um enorme (dentro da sua pequenez, claro) depósito para entulho à frente. De cada vez que se avistava aquele brinquedo na rua, tocava a sirene lá em casa
- Olhóóóóóó caaaaaaaaaaarro "paquanino"...
Ninguém se interessava muito por aquele assunto. Às vezes, com sorte, o pai ou a mãe (ou a avó, antes de ficar demasiado fraquinha) agarravam-me pela cintura e ajudavam-me no exercício hercúleo de me pendurar no parapeito, enquanto
- Olhóóóóóó caaaaaaaaaaarro "paquanino"...
Questiono-me frequentemente sobre o motivo daquele entusiasmo todo, e não chego a conclusão nenhuma.
Desta vez não é pena, é só assim.
O coração saltava pela boca e o corpo corria desalmadamente casa fora, à procura da janela onde a cada minuto, o carro "paquanino" cabia melhor. O coração só esmorecia, quando deixavam de existir janelas que o enquadrassem. Nesse momento, soltava as mãos doridas do parapeito, deixava o corpo escorregar parede abaixo até se enrolar num montinho de gente, e desejava ter uma casa de vidro, ou mais dez centímetros, ou sete bancos pequeninos empilhados, ou uma avó fortezinha,
(Nunca desejei ir para a rua atrás dele. Porque será? Se calhar por que sabia impossível o desejo) 
ou um carro "paquanino" só para mim.
(Ter um carro "paquanino" só para mim também era um desejo impossível e ainda assim eu desejava-o.)
(E assim de repente fiquei sem argumento)
(E quem disse que eu queria argumentar?)
Daquelas janelas não se viam só carros "paquaninos".
Daquelas janelas também se conseguia ver, felizmente, a avó a descer a rua com um saco carregado com vinte e oito carcaças, dezanove pãezinhos de lenha, nove vianinhas e ainda um pão-de-deus dos grandes para o lanche. Eu, a adivinhar enervação, corria rapidamente a avisar o pai, para dar tempo que a irritação do exagero gritante lhe passasse, antes da avó chegar feliz com as suas sacadas de trigo. A partir de certa idade deixa de fazer sentido contrariar coisas sem importância, e eu orgulho-me de ter contribuído para que ela morresse feliz, a comprar quilos de pão que ninguém comia, sem nunca se dar conta que aquilo era um tremendo disparate. 
Do carro paquanino, às vinte e oito carcaças da avó, passando pela carrinha do colégio que chegava vezes demais, muita coisa se passou através daquelas janelas, nos tempos em que só lhes chegava de bicos dos pés. Agora que não preciso de me pendurar no parapeito, a vida através das janelas cessou de me interessar. Por isso digo:
- As janelas deviam crescer connosco e deviam existir bancos pequeninos com tampos de corda por todo o lado.

domingo, 26 de dezembro de 2010

El Loco

Numa altura em que me preparo para regressar a Barcelona (que saudades...), lembrei-me deste dia três de Setembro. Aqui fica, sem edições envergonhadas, tal e qual foi escrito há onze anos.

Barcelona, três de Setembro de 1999

Cheguei a Barcelona pela manhã; apressei-me em direcção a um táxi, entrei e disse ao motorista “à la Plaça d’Espanya” . Olhou-me pelo retrovisor com um ar desconfiado. O meu sotaque ridículo denunciou-me de imediato.

Não falámos durante toda a viagem. Paguei e saí.

Subi a Av. Reina Mª Cristina, em direcção ao palácio de Victória Eugénia. Quando cheguei à fonte Montjuic, fui surpreendida por dois caixotes de madeira avermelhada lindíssima. Ao desviar o olhar de um para o outro, deparei-me com o inesperado (não esperava encontrá-lo Já), o pavilhão de Barcelona.

Apressei-me na sua direcção por um descampado de terra batida, onde brincavam uma série de cães vadios. Fiquei com as sandálias todas sujas e os pés também.

Para a próxima vou pelo passeio.

Ao aproximar-me dei-me conta de uma figura magra e esguia, que andava para trás e para a frente entre o volume do pódio e a espessa linha branca da cobertura em levitação. Parecia um leão enjaulado, ou “El loco” de Picasso, só que usava óculos de sol.

Sacudi os pés antes de subir a escadaria de acesso.

Cruzei-me com a figura magra atrás descrita e já de costas ouvi um “Hola” ameaçador. Era ele. Virei-me, aparentemente tranquila e reparei que trazia um cartão de identificação pendurado no bolso dianteiro das calças. Era o porteiro.

Paguei 550 pesetas para entrar, isto para estudantes claro. Malditas autoridades!

Ainda no topo da escadaria confesso que tive uma certa dificuldade em decidir por onde começar. Mirei (porque estava em Espanha) à volta, rodando sobre mim própria e de imediato cruzei o meu olhar com a “Dawn”. Não me apressei na sua direcção. Rondei o pavilhão e ela aparecia e desaparecia.

Dançava para mim.

Sentei-me no banco de pedra, no extremo mais longe da dita figura. Olhei-a fixa e demoradamente. Fotografei-a.

Os cães vadios continuavam a brincar na terra batida, alheios ao que se passava a poucos metros deles.

Vida de cão.

Passado algum tempo alguém se sentou ao meu lado, tentando ver o que eu escrevia. Odiei-o e fui-me embora.

Passei por trás do muro de travertina que serve de encosto ao banco, em direcção à estátua. Ao aproximar-me, a sua imponência aumentava. Estava num pedestal.

Quando a sua superioridade se tornou insuportável, virei-lhe as costas e fui para o centro do pavilhão. Esperei cerca de quinze minutos até me poder sentar numa das duas cadeiras Barcelona. Aproveitei esse tempo para observar o espaço.

Existem apenas duas cadeiras e vários bancos. O desgaste das primeiras é muito superior ao dos bancos e conferiu-lhes não só uma textura mais marcada, como também uma sensação de colagem ao toque. Tenho as costas a descoberto e sobe-me um arrepio cada vez que me encosto ou desencosto. Sinto algo que se divide entre a repugnância e o prazer. Ainda assim, permaneço sentada.

El loco tem uma enorme dificuldade em controlar a entrada das pessoas. Existe uma nítida confusão entre o exterior e o interior. Choverá sobre a Dwan? Hoje não concerteza, estão 25ºC.

Continuo sentada na cadeira Barcelona. Estou cercada de predadores. Não eu, mas a cadeira. Estão furiosos porque nunca mais me levanto. Estou absorvida pela escrita e não lhes dou a menor importância. Não sinto o mais pequeno remorso por ser egoísta. Teoricamente existe ainda outra cadeira livre, mas está demasiado próxima da minha , o que na prática significa que ninguém se atreve a sentar.

Estão furiosos.

Devem ser franceses.

A mola do meu bloco de notas fez barulho, tenho a certeza de que todos se assustaram, mas não disseram nada. Reina o silêncio, ninguém se atreve a falar.

Aliás, El loco parece-me deprimido (talvez fale com ele mais tarde).

Uma jovem aproximou-se de mim com um movimento brusco, em tom de ameaça. Não lhe liguei nenhuma. Está de jeans e sapatos ténis. Tem um lenço pendurado numa das presilhas das calças que se confunde com a textura do ónix. É um daqueles lenços banais debotados em amarelos e castanhos.

Lá vem o francês outra vez!

Tenho cinco pessoas à minha volta, ninguém se atreve. Ops…uma sentou-se. Estúpida. Ainda bem que o escrevo para não ter de lho dizer. Ainda por cima é feia, está vestida de caqui. Não é feia por estar vestida de caqui, nem porque não seja bonita, é feia porque se sentou onde não devia.

Agora é que o francês está desolado.

El loco continua deprimido, falo com ele mais tarde.

Aparece um amigo da “feia porque se sentou onde não devia” e foram os dois para dois bancos. Acho que são portugueses.

Sinto que o francês está a chegar ao limite da sua paciência, está prestes a explodir. Encostou-se a uma coluna.

Estou no topo da hierarquia desde as 12:00 e já são 12:35.

O francês aguentou até às 12:39 e acabou de se sentar ao meu lado. Exala um cheiro levemente desagradável, mas não o suficiente para me mandar embora. É uma pena que ele tenha dado este passo, pois eu preparava-me para me levantar e observar o desenrolar dos acontecimentos.

Está desconfortavelmente sentado, com o queixo apoiado na mão direita…ops… foi-se embora, são 12:43, nem chegou a tirar a mochila que tinha às costas.

Só consigo ver as pernas do El loco, imóveis claro. Está sentado na sua cadeira à porta do pavilhão. Só se levanta quando alguém se aproxima. Coitado, falo com ele mais tarde.

Gente a mais, demasiado calor humano, demasiada intimidade com pessoas que não conheço de parte nenhuma. Vou à livraria.

13:25 – comprei um livro e estou agora sentada na enorme língua de pedra que aponta para a estátua. À minha frente está o espelho de água maior. Houve-se água a correr mas não se vê de onde é que ela vem.

Os planos verticais tendem a desmaterializar-se através de reflexos implícitos ou explícitos. Os espelhos de água enfatizam esta situação. É pena que esteja incoberto, senão os brilhos seriam mais exuberantes. Também podia chover.

Apesar de estar incoberto, El loco continua de óculos de sol: daqueles Rayban que os meus pais usavam há vinte anos atrás. Melhor dizendo: “no tempo da outra senhora”, ou ainda “no tempo da Maria Carqueja”. Não conheci nem uma nem outra. Nem tão pouco conheci alguém que as tivesse conhecido.

Mais tarde falo com El loco, talvez ele saiba.

Continua imóvel, na sua cadeira, seguramente deprimido, com os seus óculos de sol. Desconhece que a luz na retina estimula o cérebro a produzir uma qualquer substância de que desconheço o nome. Há que avisá-lo.

Mais tarde falo com ele.

Depois de sair do pavilhão

Fui até ao “Centro de cultura Contemporànea de Barcelona”. Começou a chover. Será que El loco continua de óculos?

Uma das peças expostas no CCCB é um ready-made que consiste numa cadeira, também do tempo da outra senhora, com um letreiro que dizia qualquer coisa como: “Sit down untill death tears you appart”. Lembrei-me d’ El loco. Nunca cheguei a falar com ele.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O tempo e os gatos















Quando fico algum tempo sem viajar, esqueço-me de muitas coisas, todas importantes. Felizmente, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar um dia em que tropeço numa foto, num cheiro, numa memória,
(tropeça-se em memórias?)
e volta tudo intacto, como se não tivesse estado fugido tempo nenhum. Que grande lata!
Apesar da lata deste tudo, ainda bem que ele volta. De repente, é como se esta foto tivesse sido feita ontem, ou hoje, de tão entranhada que me está no corpo. Como se o tempo não tivesse passado por ela. E é também com lata que declaro com o coração,
- Esta foto foi feita hoje à tarde e estes miúdos nunca hão-de crescer.
O chato do tempo que insiste em correr, passa cuidadosamente pelas coisas importantes. Passa de fininho, como um gato em gincana delicada por entre os Limoges da Dona Efigénia.
(A Dona Efigénia é uma velha rechonchuda e enrugada que vive embrulhada num xaile morno, e pendurada na janela do primeiro andar que dá para o quintal da minha madrinha. Nunca lhe conheci gatos, mas aquela é seguramente uma velha de gatos)
O tempo, como os gatos das velhas, reconhece o valor das coisas. O tempo passa ao lado desta foto, tal como o gato da Dona Efigénia se enrola cuidadosamente nos vazios minúsculos entre os Limoges coloridos que animam a cómoda rococó. Chega a tocar-lhes com o pêlo e se ficarmos muito calados
(Muito calados? Calados, é calados! Protestaria a minha irmã)
quase ouvimos os passos dengosos e arrastados das pantufas do gato, a namorar as porcelanas, enquanto a espinha arqueada se acomoda à delicadeza do obstáculo.
A improbabilidade  que faz com que aquele gato não faça as porcelanas em cacos, é a mesma que não deixa o tempo passar naquela foto.
O tempo é um senhor educado e inteligente. Sabe bem que neste caso, não tem outra hipótese senão passar ao largo, tirar o chapéu com cerimónia e dizer baixinho eternamente
- Olá meninos.