quarta-feira, 18 de abril de 2012

terça-feira, 17 de abril de 2012







O vazio é uma coisa que nos enche.
O vazio é uma coisa enorme que nos enche.
O vazio é uma coisa enorme que nos enche por completo.
O vazio é uma coisa enorme que nos enche sem deixar espaço para mais nada.
No vazio só há espaço para o vazio.
O vazio tem apenas o espaço necessário para conseguir ficar cheio; de vazio.
É confuso.
Não sei se estou cheia ou vazia.

O vazio é uma bóia furada que ainda flutua; para lado nenhum.




segunda-feira, 26 de março de 2012

Pode, sim.




          O que eu gostava que as músicas falassem. Ou que pelo menos ouvissem. Ou que pelo menos esta, só esta, claro que só esta, me pudesse ouvir gritar-lhe,
          - Casas comigo?
          Ou nem perguntar, ordenar apenas
          - Casa comigo.
          Onde é que andaste este tempo todo? Procurei-te por todo o lado. O vestido já nem branco. As flores já nem vivas. Mortas. Um molho de flores apanhadas de propósito. Um altar improvisado; baixinho. E eu de pé, nas tábuas tortas, com um molho de flores apanhadas ao acaso, estragadas, se calhar já mortas, a escorrerem-me das mãos. E as mãos cerradas nas flores mortas. Porque mesmo mortas, são flores. Porque mesmo morta, sabia que havias de chegar. E para nós, flores mortas servem perfeitamente. Bem vistas as coisas nem precisamos de flores, nem de vestido, nem de altar. Agora que chegaste não precisamos de nada.
          É impossível que não me ames de volta. Um amor assim não se faz sozinha. Não é possível que eu tenha feito isto sozinha.
          - Caramba, queres ver que fiz isto sozinha?
          - Foda-se, fiz isto sozinha.
          Como é que se pode amar uma música? Já sei que não se pode. Já sei isso tudo. Mas pode, sim. Não sei como, mas pode. Eu amo. Eu amo porque vi o mundo cair à minha volta quando apareceste. Eu amo porque vi o mundo pequenino, três tábuas apenas, quando apareceste. E eu de pé naquele bocadinho de mundo tão grande quando te vi.
          E que eu morra aqui se não foi amor o que ouvi.

sábado, 24 de março de 2012

Para o gordo baixinho, com amor.

         
          Uma mulher sabe que é genuinamente feliz quando vibra com um simples agrafo.
          Não sou crente nas notícias, nem tão pouco nessa coisa da actualidade. Talvez seja uma descrente na isenção do que por aí se diz ser a actualidade, ou pior ainda e muito provavelmente, talvez seja apenas uma preguiçosa desavergonhada que encontrou uma desculpa porreira para não se preocupar em demasia com o que se passa por aí exactamente. Seja como for, exacto ou não, de vez em quando pego num jornal. Com a pontinha dos dedos, é certo; mas pego. Sempre com uma mesa onde pousá-lo, é certo; mas pego.
          Agora vou passar a pegar um bocadinho mais, e tudo por culpa de um agrafo. Um simples agrafo. Nisso sim sou crente. Não nos agrafos (talvez também nos agrafos), mas na felicidade que me chega com as coisas pequenas; como um agrafo.
          (Tenho um fraquinho recente pelo ponto e vírgula, apesar de muito provavelmente não o usar muito bem. Dá-me graça, o sacana.)
          Também tenho um fraquinho recente pel' O Público. É certo que perdeu a elegância esguia do antigo formato (dimensões, quero dizer. Acho que formato é outra coisa no mundo dos jornais), mas ganhou um coração de ferro. E como sempre me acontece, foi o coração que me salvou. Tanto me dá que seja agora baixo e gordinho.
          Ler o jornal foi, para mim, durante muito tempo, um momento absolutamente trágico. Sempre invejei os que eram capazes de se deliciar ao sol de uma esplanada qualquer enquanto desfolhavam as páginas soltas de um jornal. Tentei, vezes sem conta, copiar-lhes a agilidade . E dei por mim, vezes sem conta,  incapaz de apreciar o momento, tal era a preocupação em manter as folhas devidamente alinhadas. E dei por mim, vezes sem conta,  a bater furiosamente na mesa do café, com um molho de páginas rebeldes que nunca tive a capacidade de manter em ordem.  E dei por mim, vezes sem conta, a abandonar cabisbaixa as esplanadas, com vergonha do monte de lixo em que tinha conseguido transformar o pobre jornal. E dei por mim, vezes sem conta, a pensar comprar um agrafador de mesa na drogaria do Sr. Antão.
          Mas agora acabou-se a vergonha. Alguém comprou o agrafador por mim (deve estar feliz o Sr. Antão. O negócio anda mau) e resolveu-me a questão.
          Queria por isso agradecer ao gordo baixinho que soube fazer-me feliz. E já agora aproveitar para perguntar se não há por aí nenhum gordo baixinho que resolva,  de uma vez por todas, o problema dos bules de chá em inox que insistem em mijar para trás.
          Não é difícil fazer-me feliz. Um dia de sol, um jornal agrafado e um bule de chá bem educado chegam perfeitamente.

domingo, 18 de março de 2012

Sim, turquesa como o sol

          Montou-se num cavalo branco (ou azul) e galopou sem parar. Estava certo de que haveria de chegar a algum sítio; diferente. Porque a Terra é redonda, passou centenas de vezes pelo ponto de partida. Nunca o reconheceu, de tão certo que estava de que galopava para a frente.
          Quem o viu passar, centenas - sim, centenas - de vezes a alta velocidade, nunca ousou interromper-lhe o caminho. Assim,
          galopou,
          galopou,
          galopou,
          galopou...
          E um dia, muitos dias - sim, centenas de dias - depois, já muito velho e cansado, apeou-se finalmente num prado. Qual não foi o seu espanto ao ver que o bicho era mesmo azul.
          Não branco. Nem branco ou azul. Azul.
          Não se sabe ao certo se parou de velhice, ou se o prado era de facto um sítio diferente. O que se sabe, isso sim, é que o velho nunca mais precisou de montar. Descansou os três dias que lhe sobravam, tranquilo, junto ao seu puro sangue árabe turquesa.
          Nesses três dias lá no prado, nunca ousaram dizer-lhe que o cavalo era alazão.
          Ainda bem.

sábado, 10 de março de 2012

IVAA - Imposto de valor amoroso acrescentado


Imediatamente depois das de amor, as cartas mais perigosas de abrir são as que precisam que as extremidades sejam destacadas pelo picotado.

Ou,

as cartas de amor deviam vir com as extremidades destacáveis pelo picotado.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O grande almoço de domingo


          Olá João,

          Provavelmente aborreço- te com um assunto que pouco te diz, mas estou arrasada por causa do António. Não é só o António. E o pior é isso. É que não é só o António.
          Quando te contar o que aconteceu, nem acreditas.
          Se não tiveres paciência, ou tempo, ou outra coisa qualquer, não respondas. No fim deste mail vou ter uma resposta, de certeza. Mesmo que essa resposta seja: não há nada a fazer, Sofia.
          (Estás neste momento a pensar que te uso, João. E estás certo. Uso- te sim. É para isso que servem os amigos, não é? Para os podermos usar sem culpa, não é? Isso e jantar, às vezes. Só às vezes)
          Voltando ao António,
          A vida dele colapsou. Isso mesmo, João. Colapsou. Totalmente. Não sobrou nada. Colapsou sem precisar que acontecesse nada de grandioso.
          Quando te disser o que aconteceu, nem acreditas.
          Não aconteceu nada de importante, juro. Fez o que todos fazemos. Montou a sua vida num punhado de boicotes mal amarrados e teve o azar que podia ter calhado a qualquer um de nós. O pouco que lhe segurava a vida de pé, caiu. De um momento para o outro. Não foi bem de um momento para o outro. Na verdade aconteceu tudo devagarinho. A desgraça andava-lhe a rondar a porta há dias, e ele não a viu de tão focado que estava na sua vidinha amarrada com aqueles atilhos fininhos. Tão fininhos. Como os nossos, entendes? Eu tenho atilhos, João. Toda a gente tem atilhos. E fininhos. Pelo menos eu gosto de acreditar que toda a gente tem atilhos. Tem sim, João.
          Há quem diga que foi porque lhe morreu o amor da vida.
          Mas não foi isso, João. Não foi isso. Foi muito pior do que tudo isso.
          Quando te disser o que foi, nem acreditas.
          Mas um dia podem ser os teus, João, ou os meus. Os atilhos, entendes? Como aqueles que os senhores da Tentadora desenrolam agilmente, para prender a caixinha dos bolos que costumas levar para o almoço de domingo. O atilho que na tua cara, enquanto um sorriso e um,
          - Ora aqui está, menina. (ou menino. Porque todos os meninos e meninas têm atilhos)
partem com um golpe seco.
          É com aquele atilho fininho, que se parte com um puxão, uma pequeno puxão, que está tudo amarrado.
          E foi só isso que lhe aconteceu. Ao António. Só isso. Com toda a simplicidade com que,
          - Ora aqui está, menino.
          Só isso.
          Podemos ir todos almoçar no domingo. Podemos levar as meninas, e os meninos. Podemos até levar o António.
          (Já não deve conseguir ir, o António)
          Tu vais como sempre buscar os bolos à Tentadora. Sim João, vais ter de ir à Tentadora. Mas não te preocupes com o golpe seco e com o
          - Ora aqui está, menino.
          Olhas para o lado, João. Olhas para o lado e pronto.
          O importante é que leves os bolos para o almoço de domingo.

          Um abraço,
          Sofia

domingo, 26 de fevereiro de 2012

És tu




Só vale a pena viver quando alguém te ama.
Sim, és tu.
És tu.
Olha ao espelho e diz:
Sim, és tu.
És tu.
És tu.
És tu.

And now you do.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Podemos?

- Na vida não podemos fazer só o que queremos - diz o pai.
- Faz sempre o que queres - diz a mãe.
Angustiada, pergunto com a voz pequenina - achas que ainda falta muito?
- Pergunta à mãe - responde complacente.
- Obrigada, pai.
E eu, feliz, apesar de saber tão bem que não.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Deixa-te de tretas, e vamos à praia

          Atormenta-me a morte desde sempre. E se até ontem me atormentei calada, hoje não temo parecer atormentada com a morte, e digo bem alto:
          - Sim, atormenta-me a morte. Desde sempre. E depois?
          Atormenta-me o fim. Ou talvez o caminho. É isso, o problema é o caminho. Ou se calhar atormenta-me apenas o fim do caminho.
          Vou à praia. Há trânsito. Há buzinadelas enervadas por todo o lado. Há Agosto a suar dentro dos carros. Há famílias empoleiradas em automóveis comprados a prestações, carregados de sandes de mortadela; uma fatia fininha apenas, por causa do crédito... Mas depois há o mar. E o mar resolve tudo.
          Vou à vida. Nem sempre há trânsito. Nem sempre há buzinadelas por todo o lado. Nem sempre se sua em Agosto. Nem todas as sandes são de mortadela, e quando são, nem sempre as fatias são fininhas. Mas depois, nem sempre há o mar para resolver tudo.
          Por isso, se puderes, vem apanhar-me num carro que até pode ser a prestações, desde que me resolvas tudo.

          Sim, atormenta-me a morte. Talvez porque me atormenta a vida. Sim, desde sempre, e depois?
          O que vais fazer?
          Matar-me?
          Obrigar-me a viver?
          (Gargalhada)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Somos quantos, afinal?

Descobri recentemente que escrevo na terceira pessoa. 
Fico feliz por saber que escrevo numa pessoa qualquer, mesmo que não seja a primeira.
Mas ficarei infinitamente mais feliz, se algum dia descobrir que essa pessoa,
sou eu.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Géneros literários, ou lá o que é...

Tragédia:
- Tens medo da morte?
- Da minha não.

Comédia:
- Tens medo da morte?
- Da tua não.

Épico:
- Tens medo da morte?
- Não sei. Bora experimentar?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Carta ao Pai Natal (fora de horas, claro)

          Querido Pai Natal,

          Ando há dias com esta carta às voltas na cabeça, mas por culpa da urgência dos doces e dos salgados, só hoje a escrevo. Não é urgente, por isso pouco importa a data. As rabanadas eram para sábado, já o que te quero pedir é para quando puderes, sem pressa.
          Desconfio que não faz muito sentido escrever-te a ti, mas não encontrei destinatário adequado ao pedido, por isso abuso do espírito da quadra  para evitar ficar para aqui a falar sozinha.
          Podes-me ouvir?
          Se não te apetecer nem oiças, basta-me que acenes com a cabeça de vez em quando. Pode ser?
Sabes o que é Pai Natal, tenho uma dúvida há anos para a qual ainda não consegui encontrar resposta, e como estou prestes a completar trinta e cinco anos, começo a ter alguma vergonha de ainda não perceber nada disto.
          Diz-se por aí - numa conjugação reflexa do presente do indicativo, demasiado genérica para o meu gosto - que se deve amar com cuidado. Parece que o coração é matéria delicada e mais vale não abusar. Eu tenho abusado, é certo, mas mais por mera inabilidade do que por convicção.
          Depois dos trinta, altura em que nos damos conta de que as birras não valem a pena; de que ele não vai voltar a respirar se estiver já morto; de que um dia nem a tua mãe vai lá estar para te dar dois açoites no rabo e ordenar-te que pares, ou para convencer o pai a comprar o cubo mágico à menina; de que a mãe nem sequer vai lá estar para que lhe grites à vontade o que gostarias de gritar ao patife do defunto; de que um dia vamos olhar em frente e só veremos uma linha; a da frente, claro; enfim, depois de me dar conta de que a vida é mesmo a vida e não há birra cheia de baba que mude isso, achei que devia ser uma pessoa melhor. Depois de alguma investigação científica sobre essa vasta matéria que é "uma pessoa melhor", entendi por bem que devia observar antes de agir, decidir antes de agir e mesmo depois de tudo isso, devia respirar, depois respirar ainda um pouco mais, e só então agir.
          Tentei isso tudo o melhor que pude, mas infelizmente errei ao acreditar que podia ser uma pessoa que não sou. Já tinha errado à primeira quando não quis ver que a vida era a vida, e agora, estúpida, voltei a errar ao achar que podia ser outra que não esta. E esta, apesar de respirar já bastante melhor, não sabe viver feliz de outra maneira que não seja a esticar as mãozinhas em concha e dizer,
          - Toma, é teu, mas vê bem o que fazes com ele.
          Se for preciso ainda explica,
          - Vês, não há mistério nenhum: tem dois ventrículos que funcionam na perfeição, uma aurícula esquerda saudável quanto baste, uma aurícula direita melindrosa, e uma artéria aorta um bocadinho mimada.      
          Mas se o tratares com jeitinho, vive-te feliz até aos cem anos.
          E se mesmo assim não se conseguir fazer entender, vai buscar um bisturi afiado e faz um cortezinho suave, enquanto esclarece,
          - Espreita aqui com cuidado. Mas não toques! Estás a ver ali ao fundo aquela veiazinha minúscula? Ali não deves mexer, senão aborrece-se. Prometes?
          Depois pega numa agulha fininha, tão fininha que quase não se vê para não deixar marcas, e cose a incisão com a delicadeza das modistas de outros tempos. Uma compressa esterilizada só por precaução e,
          - Toma, é teu novamente, mas vê bem o que fazes com ele.
          É certo que esta que sou podia meter as mãos nos bolsos em vez de andar para aí com elas estendidas, e já agora podia guardar o coração no lugar dele. Mas para isso teria de prescindir de toda a parte boa de viver com o coração bem vivo. Teria de prescindir do deslumbramento das coisas bonitas, de se sentir inchada de felicidade por culpa do sol baixinho das manhãs de inverno, da felicidade imensa que chega com as coisas parvas, de te amar com a demência do último dia do Universo, da última hora do Universo, do último minuto do Universo, do último segundo do Universo...  Teria até de prescindir do rímel desbotado por causa do reclame tolo da Coca-Cola... Mas como isso está fora de questão, observou, decidiu, respirou, respirou ainda uma vez mais, e comprou um rímel à prova de água.

          Confuso, Pai Natal? Imagino que sim. Mas não te preocupes, se não conseguires trazer-me a segurança das coisas certas, traz-me ao menos o carro de praia das Barriguitas, para eu me distrair.

          Um beijo enorme,
          S.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Morrer em bom

          Apenas o líder de um regime autoritário consegue morrer de uma doença ilustre, que dá pelo nome pomposo de "cansaço físico e psicológico da sua dedicação à vida e ao povo". A mim cheira-me a uma subespécie primitiva da tuberculose ou do herpes labial, mas quiseram chamar-lhe assim, e quem sou eu para contestar.
          O comum dos mortais morre de cancro, de doença cardíaca, ou de cirrose. Já o incomum dos mortais, como felizmente é o caso, morre sem fraldas mijadas, nem tubos enfiados pela goela abaixo; morre barbeado, perfumado, bem vestido e, claro, delicadamente durante o sono. Líder tirânico que se preze nem às portas da morte põe em causa a dignidade e perpetuação do seu regime.
          Parabéns senhor Kim Jong-il!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ad scribendum

          Sei, desde sempre, que o meu pai estudou no seminário. Aliás, sempre julguei saber que o meu pai estudou no seminário. Ontem, porém, descobri que o meu pai estudou no seminário, e chorei.
          Tive sempre um enorme orgulho em ter um pai que sabia latim, que lia convictamente os escritos majestosos cravados nas fachadas de edifícios públicos importantes.
          -Estão a ver ali meninas: Domvs ivstitiae. Sabem o que quer dizer? - Inquiria num tom de voz tranquilo e sábio, de cada vez que passávamos à porta de um tribunal.  As meninas, inchadas de admiração, desencostavam-se prontamente do banco do carro, e esticando o pescoço num esforço hercúleo para a sua pequenez, acendiam as luzes do palco, abrindo-lhe as portas à vitória,
          - O quê? O quê? Onde?
          - Ali, na parede do tribunal. Significa palácio da justiça, e é o sítio onde se aplicam as leis. Está escrito em latim, uma língua antiga do tempo dos romanos. - Concluía, sorridente de vaidade. E as meninas, boquiabertas, retomavam serenas o encosto. Estávamos seguras, ao volante encontrava-se um homem que sabia coisas importantes e que por sorte nos calhara em pai.
          Era frequente exibirmos no colégio tamanha glória. Deleitávamo-nos a ostentar a grandiosidade do nosso pai, gigante, maior que todos os outros. Ainda que não soubéssemos ao certo a relevância de tal facto, parecia-nos quase sobre-humano que o nosso pai (que sorte, logo o nosso) conseguisse ler e entender letras enormes, todas elas maiúsculas, esculpidas em pedra na gravidade das fachadas imponentes, ou proferidas ao mundo inteiro por um ser superior vestido de branco.
          - Urbi et Orbi. À cidade e ao mundo - Repetia baixinho a saudação do Papa. E depois explicava,
- No latim os artigos integram os substantivos sob a forma de terminação. Ou seja, o "à" e o "ao" são substituídos pela terminação "i" em latim. Por isso, esta expressão jamais poderia significar "da cidade para o mundo" como estás a dizer, Sofia. Esta sabedoria de pacote de farinha33 quase me valeu o ódio de um professor de faculdade que um dia ousei corrigir.
          Para enorme desgosto da minha avó, que o elegeu entre onze irmãos para frequentar o seminário, o meu pai nunca foi um homem fé. Mas apesar de descrente na religião, tinha um amor inabalável  à escrita e à correcta utilização das palavras, que considerava sagradas. Eu e a minha irmã tivemos o privilégio de crescer a acreditar que saber escrever correctamente era imprescindível para qualquer ser humano.
          - Mesmo que queiram ser varredoras de rua quando crescerem, devem conhecer a vossa língua. Sem isso não vão a lado nenhum. - Apregoava frequentemente.
          Mesmo que na altura não encontrássemos relação pertinente entre uma vassoura e a Língua Portuguesa, lá fomos crescendo imbuídas num enorme respeito pelas letras. Porém, à época não fazíamos ideia do que estava por trás de tudo isto. Ríamos desbragadamente dos relatos que o meu pai fazia da sua primeira noite no seminário, do choro aflito no meio escuridão, e principalmente do colchão de palha que o salvou do embaraço de uma cama molhada pela manhã. O que as meninas riam, ignorantes, por saber que um dia o pai também fez chichi na cama, de palha.
          Tenho a certeza de que o meu pai me perdoa tamanha arrogância inconsequente, própria da idade. Já eu não estou certa de me conseguir ilibar tão cedo. Pelo menos não antes de conseguir processar o que li ontem.
          É fácil retirarmos gravidade à má sorte de um miúdo de seis anos, que agora vemos radiante, a gargalhar de si próprio enquanto delicia as meninas com histórias passadas. Mas quando essa mesma história nos chega de alguém que não sabemos se agora ri, repensamos tudo. Essa história chama-se "Manhã submersa" e chegou-me pela mão de VF, por quem, por estar morto, me posso declarar pública e irremediavelmente apaixonada. Não sei se sabia rir antes de morrer e acho que nunca saberei. Espero que sim. Prometo, contudo, não voltar a rir da foto do meu pai enfiado num fato preto dois números acima, e com os pés afundados num par de sapatos gigantes, com que lograria regressar do seminário,anos mais tarde, com os pés apertados. Mas porque gosto demasiado de rir, provavelmente não vou conseguir manter a promessa. E assim sendo, acho mais prudente prometer apenas que vou rir bem alto, sim, mas sempre com o olhar cúmplice, para ti, das coisas que eu agora também sei.

          (Peço desculpa ao meu pai, pelos erros que este texto provavelmente tem. Podemos rir-nos disso também.)