terça-feira, 18 de outubro de 2011

Fschhhhhhh...












Ainda no outro dia tentava explicar aqueles balões a uma amiga.
- Sabes sim, aqueles pirosos de camuflado colorido...
Nada, nem uma vaga memória lhe avivou o rosto
- Não, não faço ideia do que falas...
Nada. Nem tão pouco improvisou uma mentira piedosa para me tranquilizar o espírito. Podias ter mentido Susana, um simples
- Tenho uma vaga ideia, sim...
ter-me-ia descansado.
Se calhar sonhei que fui feliz com aqueles balões que ninguém queria. Impossível. Lembro-me bem demais de os ver ganhar forma num instante.
Fschhhhhhh... E num segundo passavam de uma insignificância murcha a uma existência orgulhosa de peito inchado.
O que mais me fascinava nestes balões específicos era o momento único em que o ar injectado lhes dava forma ao camuflado colorido, instantes antes escondido na sua pequenez frôxa.
Fschhhhhhh... E aquele minúsculo patinho feio transformava-se de imediato num belo cisne esvoaçante. Por mim teria ficado ali horas ao pé do senhor que operava esta mudança. Qual Jardim Zoológico qual quê!  Por mim, fschhhhhhh... o dia todo, a tentar adivinhar as manchas coloridas que cada patinho feio escondia encolhidas. Intrigava-me que aquele processo fosse inverso ao da plasticina, e enchia-me de esperança saber que se podiam afinal separar as cores, outrora juntas. Com a plasticina isso não acontecia. Sempre que misturava as cores todas numa só bola, ficavam irremediavelmente juntas num castanho eterno. Já com estes balões, tudo era possível. De um bocado de borracha frôxo e de cor indecifrável, nascia instantaneamente um arco-iris de cores, assim que a botija de oxigénio fschhhhhhh...
(aquilo não era oxigénio, bem sei. Mas o que importa isso agora?)
Talvez tentasse fschhhhhh... nas minhas plasticinas um dia destes lá em casa. Mas onde poderia arranjar uma daquelas botijas cinzentas gigantes capazes de fschhhhhhh...? Era frequente vê-las empilhadas a um canto à saída do Hospital onde trabalhava a minha mãe.
Num hospital?
Estariam doentes os balões naquela época?
Agora entendo. Se calhar sucumbiram à doença, por isso nunca mais ninguém os viu.
Parece que recentemente, do outro lado do mundo, foi visto um rapazinho com uma molhada de sobreviventes na mão...
Corri a explicar-lhe que sem fschhhhhhh... não durariam muito mais, mas ao que parece a língua dele é daquelas que se escreve da direita para a esquerda, e convenhamos que hhhhhhhcsf não incha o peito a ninguém.

1 comentário:

alfa disse...

...encalhando Sofia, ainda nos vooltamos a cruzar por aí...foi um bom momento aquele final de tarde na APTCA...depois passei aqui, e gostei muito do que li...bjinhosss e muita inspiração