quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Assim se ama na Pérsia



Foi assim que encontrei Hafez. Morto e chorado. Nunca tinha visto devoção tão grande que não se prendesse com religião. Tentei falar com algum dos muitos devotos que visitavam o túmulo naquele dia, mas o inglês ingénuo da maioria dos iranianos e o meu débil farsi, não ajudaram. Quando finalmente encontrei duas mulheres com quem pude trocar mais do que dois sorrisos de conversa, perguntei curiosa o motivo de tanta comoção. Estava certa de que a resposta seria que para além de um grande poeta persa, Hafez tinha sido também um muçulmano irrepreensível e um fiel seguidor do Corão. Mas a resposta foi bem mais simples (ou não) da que imaginei. Entre véus escorregadios a denunciarem cabelos finamente cuidados, risos comprometidos em rostos excessivamente maquilhados, e alguns gracejos em farsi, a resposta à minha pergunta foi afinal: O Amor.                                          
Num país em que o destino feminino nasce traçado, mulheres de todas as idades confiam emocionadas  o seu futuro aos poemas de um defunto. Estranho? Não. Quando o real nos escapa à vontade, resta-nos sonhar que o irreal nos pode contornar a sorte. Nunca cheguei a saber a fortuna desta mulher. Nem a real, nem a sonhada.

4 comentários:

Exilado disse...

Lindo!

Anónimo disse...

Mesmo mesmo muito bom. Sofs no seu melhor.

Anónimo disse...

Amo este texto! Parabéns Sofi

Alexandra disse...

Lindo! Adorei!