quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Coisinhas que eram

O supermercado da D. Isilda não resistiu aos hipermercados e morreu, como todos os seus colegas de carteira. Sobram alguns, quase nenhum nas grandes cidades. Hoje não vou desenrolar o novelo nostálgico. Morreu de velho e pronto. É assim que as coisas acontecem.
Enquanto viveu, o supermercado da D. Isilda morava na porta ao lado do meu colégio e era paragem diária obrigatória da minha mãe no nosso regresso a casa. A D. Isilda, como jeitosa para o negócio que era, percebeu desde cedo que valia a pena investir em mim. Havia ali potencial consumista e chantagista. Tratava-me nas palminhas, subornava-me com rebuçados de qualidade duvidosa que me deixavam a língua tingida de cores baratas e as bochechas estrelhaçadas, em troca de alguma pressão manipuladora junto de quem tinha o dinheiro: a mãe. A D. Isilda era esperta e soube ver que eu faria aquilo muito bem. Não se enganou. Assim que me via ao longe na rua, rasgava um sorriso largo de cifrões nos olhos. Toda ela era luz. Trocávamos olhares cúmplices, piscadelas de olho marotas, e a D. Isilda movia a boca freneticamente a dizer coisas sem som, de cada vez que a minha mãe virava costas. Eu acenava que sim com a cabeça mas raramente entendia as ordens. Suponho que fossem palavras encorajadoras a confirmar a aliança,
- Vá lá, já sabes como é. Tenho aqui rebuçadinhos novos.
(piscadela de olho)
Eu, fiel, sempre que a D.Isilda dizia qualquer coisa como,
- Tenho aqui uns pesseguinhos lindos para a menina.
acenava com a cabeça que sim e punha uma cara angelical a insinuar
- Morro se não comer pesseguinhos. ESTES pesseguinhos.
No supermercado da D. Isilda não havia coisas, havia coisinhas, principalmente quando se tratava de coisas para a menina:
pesseguinhos, 
perinhas, 
batatinhas, 
nabicinhas... 
Tudo fresquinho.
Infelizmente nunca eram coisinhas boas como bolachinhas de chocolate, ou bolinhos com creme, ou pastilhinhas. Eram sempre frutinhas ou outras coisinhas chatas (chatinhas neste caso) com que se fazem sopas. Apesar de naquela idade nada do que serve para fazer sopa ter qualquer relevância, eu declarava desejo incontrolável pelas tais coisinhas que a D.Isilda propunha para a menina, em troca de línguas tingidas e bochechas estrelhaçadas.
Um dia, num daqueles meus momentos de paixão arrebatada, disparatada e irreversível, declarei:
- Mãe, quero aqueles rebuçados gigantes. Pode ser?
Os rebuçados gigantes eram nada menos que pastilhas de detergente para sanita, magnificamente embrulhados em papel celofane das mais variadas cores e dispostos na prateleira de forma absolutamente apetitosa.
- Aquilo não são rebuçados, são pastilhas de detergente para a sanita.
Pensei um momento. Pesei os prós e os contras (mal claro está), conclui que uma dor de barriga não era nada comparada com a posse de tão maravilhoso e hipotético rebuçado e rematei,
- Não faz mal  mãe, eu gosto daqueles rebuçados mesmo assim.
- Mesmo assim como, se aquilo não são rebuçados?
- Mesmo assim como eles são.
- AC, NÃO SÃO rebuçados! São pastilhas desinfectantes para a sanita.
- Pode ser mãe. Pode ser mesmo essas pastilhas para a sanita que parecem rebuçados.
- AC, se comeres aquilo vais ficar mal da barriga. Aquilo não é para comer.
- Mas eu gosto.
Quando se me acabavam os argumentos, entrava em modo de "mas eu gosto". Não é possível refutar um "mas eu gosto". Ou melhor, até é, mas dá imenso trabalho a pais esgotados por uma dia de trabalho rotineiro e as criancinhas apercebem-se rapidamente disso. Apesar do cansaço materno, dali vinha sempre uma longa e aborrecida conversa sobre como não é possível gostar-se de uma coisa que não se conhece, que nunca se provou, como é preciso ser-se racional às vezes e tudo mais que as mães tentam ensinar às crias e que na maioria dos casos fica algures arquivado no cérebro, chegando apenas a surtir efeito na idade adulta. 
(Deve ser necessária muita perseverança e capacidade de acreditar para se ser mãe. Há-de lá ficar qualquer coisa, é preciso acreditar. A verdade é que fica e a prova disso é que eu não ando por aí a devorar pastilhas de w.c. pato)
Fazendo uso da minha valiosa aliança com a D. Isilda, pisquei-lhe o olho  como quem diz:
- Se queres que te continue a ajudar a vender frutinha e coisinhas para a sopa, é bom que me dês uma ajudinha aqui. 
Ela entendeu a cobrança e disparou
- Então mas se a menina quer, compre-lhe e não a deixe comer, ou deixe-a provar para desencrençar.
O que a D.Isilda não sabia é que eu comeria as pastilhas de sanita de qualquer jeito. Aquilo para mim eram rebuçados e não havia volta a dar. Felizmente a minha mãe conhecia-me bem demais e adivinhou perigosa a compra. Poupámos uma noite no hospital mas a minha aliança com a D. Isilda nunca mais foi a mesma. Nem a aliança, nem a capacidade de amar incondicionalmente.
É ou não é grande esta capacidade de amar cegamente, de amar um rebuçado que afinal é uma pastilha desinfectante para sanita?
É, não.
Era.

2 comentários:

José Alexandre Ramos disse...

LOL, para o que te deu! Rebuçados wc pato! :D

Está fabulosa esta crónica. Mais uma vez: tens a mão bem treinada! Já procuro o teu blogue como há muito tempo não fazia com nenhum: «será que tem texto novo? Não. Ooohhh... Tem? Iupiii!»

:) Beijos.

Nuno Medon disse...

olá! Adorei esta crónica. Se todas as lojas tradicionais, tivessem tão bons clientes como tu, ficavam ricos. Eu adoro pequenas lojas comerciais. Ao pé da minha casa, também tem uma loja comercial, que foi passada há uns anos a outros donos. A dona Conceição, a dona da loja, ( em antes de a ter passado ) tinha muita clientela. Eu comprava lá muita coisa, desde revistas a chocolates, um pastel ou outro, rebuçados. E tinha muita queda para o negócio. Era delicada e sabia impingir muito bem. Ás vezes, dizia-me " nuno, se não tiveres dinheiro, pagas-me amanhã ou quando puderes.. e lá vinha eu com a revista embora", mas pagava-a ao outro dia. Passou o negócio, talvez por cansaço, mas noto que a loja não tem tanta clientela como ela tinha. as melhoras do teu pé, ou perna. Grená é tipo um vermelho escuro, não é ? vá lá que as muletas não eram cinzentas e tristes. beijos e um bom fim de semana.