sábado, 12 de maio de 2012

Descaradamente copiando ALA


          Esta é uma "coisa" que escrevi em 2010 e que se perdeu na blogosfera. Recupero-a hoje, aqui, para que não se perca nunca mais.

          Sempre ouvi dizer que um dos segredos para aprender a escrever é copiar muito. Copiar bom, copiar bem. Por falta de tempo ou de outra coisa qualquer, não faço muito isso.
          No outro dia vi-me obrigada a copiar uma crónica de António Lobo Antunes para publicar num blog. Alguém tinha de o fazer. Calhou-me a mim e ainda bem.
          Uma cópia é um desafio doloroso à minha quase inexistente capacidade de concentração. Copio letra a letra, em esforço, devagar, muito devagar. O olhar arrastado entre o ecrã e a revista Visão, distrai-me a cada balanço. Qualquer coisa serve: 
          uma formiga apressada; 
          uma auréola de café com leite ressequido que o rabo molhado da caneca imprimiu na mesa, castanho claro numa ponta, castanho escuro na outra, a lembrar as montanhas dos mapas de geografia do liceu; 
          a formiga a atravessar a fronteira de café com leite;
          a formiga sem parar na alfândega improvisada pelo pacote de açúcar amachucado, para mostrar a bagagem que transporta para o lado de lá de uma linha que, quando vier a D. Olívia na terça-feira deixará de dividir dois mundos que afinal nunca existiram; 
          a formiga cansada com um calhau de açúcar refinado às costas;
          (mas porque é que não pousas o calhau enquanto esperas, caramba?)
          e a colher que misturou a fronteira com  o açúcar, nos tempos em que a fronteira ainda estava dentro da caneca, a barrar o caminho à formiga cansada...
          Por conta das formigas e das canecas - e vendo bem, também por conta da D. Olívia que nunca vem a tempo de apagar distracções com a Villeda encardida - salto linhas, entronco (existe este verbo?) palavras, invento adjectivos, termino frases sem copiar nada....
          Faço com as cópias o que faço numa conversa de café. Sou daquelas chatas que abana sistematicamente que sim com a cabeça enquanto o outro fala. Há quem sacuda cabelos soltos ou restos de escalpe dos ombros de quem tem a palavra, eu prefiro - na realidade não consigo evitar - completar as frases dos outros.
          (E ele provavelmente a não querer que eu lhe complete as frases.)
          (E eles provavelmente a desejarem que eu pare de abanar a cabeça.)
          Digo sempre a última palavra. Quando não vou a tempo, substituo a que já foi dita por uma mais adequada, mais ilustrativa, ou que só eu acho mais adequada ou mais ilustrativa e que provavelmente não passa de ruído para o outro que deseja apenas quem lhe escute as coisas, sossegado e em silêncio.
          Se calhar termino sempre as frases dos outros numa urgência de mostrar atenção ou concordância,
          (mais concordância, acho)
          ou quem sabe num sobressalto de quem não aguenta mais discórdia. Assim, completando-lhe as frases, asseguro-me de que convergimos pelo menos no pensamento.
          (E eu a saber tão bem que nunca convergimos. Tocamo-nos aqui e ali, pontualmente, só isso)
          Esqueço o que sei e asseguro paz, fabricada por uma convergência absoluta, necessariamente fingida.
          Eu queria ter uma convergência absoluta com ALA, mas não tenho, ninguém tem. Limito-me então a copiar-lhe desajeitadamente as crónicas, e a sonhar que se alguém tivesse, seria eu.

1 comentário:

marianapedro disse...

Meu bem, é espetar uma revista em cima da formiga... :)

Gostei do texto.

Beijo