terça-feira, 8 de junho de 2010

Era uma vez um senhor feliz

Tenho uma inveja terrível do senhor da bomba. Chamemos-lhe Manel.
Sim, Manel. Que falta faz lá o "u"? Nenhuma.
Uma vez por ano, levo o carro a lavar à Galp do Viaduto Duarte Pacheco.
Nos últimos anos tenho ido mais vezes, por culpa do sr. Manel.
Faz-me bem lá ir. Gosto de ver gente feliz por dentro, do género que não dá para enganar: o cabrão é mesmo feliz!
A primeira vez que o vi pensei: espera pela pancada que vais ver como elas te mordem. Não te dou nem um mês para se te escapar da cara, esse sorriso de pateta alegre.
Mas o tipo é dos resistentes. Deve ter andado no Mar ou na Guerra.
Pescador ou combatente. Só pode! Já não há vaga que o afunde nem bala que o atravesse.
Sei lá quanto tempo depois (muito, seguramente) por lá continua, a lavar carros e almas.
O sr. Manel já não vai para novo, mas não é daqueles velhos gaiteiros que fala sem parar e que trata as senhoras por "a menina isto, a menina aquilo...". Sempre de sorriso posto, nunca pergunta mas responde sempre e não gosta de dar uso dispensável às palavras.
Nunca tinha tropeçado numa pessoa assim.
Da primeira vez que o vi, desconfiei.
Da segunda vez que lá fui (ainda com o carro limpo) não resisti e abri o vidro:
- Bom dia! Isto hoje está mais para chover do que para outra coisa.
Ai miúda... a velha pareces tu. A falar do tempo?!
O sr. Manel a sorrir generosamente, de cabeça entre os ombros a olhar para o céu:
-Pois... tá mau.
Mas ele não está ali para a converseta, nem para analisar o tempo. O que o preocupa verdadeiramente é o carro. E neste caso tem razões para isso porque aquela pintura já teve melhores dias. O que em tempos foi um carro cinzento é hoje um carro dourado pelas faíscas ardentes dos carros eléctricos. Se não fosse o medo que tenho que os façam desaparecer de Lisboa, já teria seguramente enviado a factura do polimento da pintura à Carris.
O sr. Manel estava visivelmente intrigado com a cor e textura do meu automóvel. Andava ali às voltas, qual leão enjaulado. De quando em vez passava-lhe a mão pelo pêlo e abanava a cabeça em sinal de reprovação, sempre em silêncio. Até a sua reprovação era tranquila e de gestos aveludados. Tudo naquele homem parece incrivelmente doce e leve.
Voltei a não resistir e voltei a abrir a janela. Tínhamos ali matéria para conversa, pensei eu.
- Sabe, é dos carros eléctricos...
- Isto resolve-se... Petróleo...
Deu meia volta ao carro até à minha janela e explicou-me em poucas palavras, que tudo aquilo sairia com um pouco de petróleo num pano e muita paciência.
Paciência... Deve ser esse o segredo. Pensei. Deve ser isso.
Num movimento brusco e impaciente, a máquina gigante atirou-me com o carro para as suas goelas laranja e esfomeadas. Nem tive tempo para me despedir convenientemente. Não sei muito bem que despedida se pode esperar de um sr. que não se conhece, só sei que daquela eu não gostei. Ainda lhe vi invertido no retrovisor, um resto de aceno de braço, desfeito pela espuma branca que num segundo tomou conta do vidro traseiro.
Passei meses sem o ver.
Confesso até que passei meses sem me lembrar dele.
Continuei a frequentar a bomba e nunca mais aquele homem me veio à memória.
Só me dei conta da falta que me fez, quando o revi na semana passada.
Agora vestiram-lhe um fato de astronauta, gordo e quente, a dizer GALP em cores garridas!
Para qualquer outro, aquele fato de sauna teria sido fatal. Para o sr. Manel, não. Claro que não!
O mesmo sorriso terno, apenas um pouco mais suado:
- Melhorou. Foi do petróleo?
- Não... não tive paciência.

1 comentário:

alfa disse...

Passei por aqui, através do "As partes do Todo" e resolvi viajar cá dentro...gostei muito da sua escrita, da "casa da minha madrinha" e da simplicidade deste verso tão pequenino, tão simples, mas maravilhoso "da cor da Lua".bjs